Cinecartaz

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Coisa abaixo de cão

Este filme é mau. Mesmo para filme português é mau. E não é por falta de meios: a fotografia e o som são excelentes, os actores são profissionais, não se poupou nos adereços e nos locais. Mas estes meios estão ao serviço de uma obra que se resume ao saque de cenas, ideias, ambientes e frases inteiras de filmes alheios e na sua colagem sem qualquer critério ou razão. São 100 minutos sem uma ideia nova, só pastiche. E, se, por vez, se fazem grandes filmes assim, neste a pilhagem não serve qualquer fim. Não se percebe qualquer razão para o filme ter sido feito, desta ou doutra maneira, ou dever ser visto. Se o filme pretende contar uma história, falha, porque não há história, mas uma soma de eventos desconexos e anedotas, meros pretextos para inserir as cenas copiadas doutro lado: os diálogos, imensos, são prolixos, pedantes e sem humor; as personagens, esquemáticas, mudam de carácter e estado de espírito sem razão aparente; a encenação é liceal: personagens entram e saem de cena sem propósito, ausentam-se minutos a fio e reaparecem, nenhuma tem uma ocupação regular aparente.

Se o filme procura criar e descrever um ambiente, falha, porque, para lá da paisagem, nada ali é real: a aldeia só tem uma rua e um largo, ambos com aspecto de museu; os habitantes falam todos com sotaque de Lisboa, incluindo uma sopeira, com a dicção do Teatro Dona Maria II; as pessoas tratam os padres por "você"; os padres tratam-se entre si por "você"; e uma aldeia sem habitantes tem, todavia, dois padres. Em suma, ninguém se deu à chatice de passar uma semana numa aldeia, ir à tasca, falar com as pessoas.

Se o filme procura criar sensações falha: não há um susto, um só, uma sensação de medo, ansiedade ou inquietação, somente – no meu caso – o espanto de estar mesmo a ver uma coisa indescritivelmente ruim e a percepção, essa sim verdadeiramente assustadora, de que este é mesmo um país onde tudo pode acontecer - como um filme assim ser "Recomendado pelo Cinecartaz".

Publicada a 21-03-2006 por jpt