Cinecartaz

Carlos Abreu

Bom e pronto

Gostei muito de "Coisa Ruim" e não compreendo a crítica de excesso de convergência com a estética de outros realizadores como Kubrick, Shyamalan, Amenábar. O filme é bom porque retrata o interior português e procura o medo que certos lugares ainda conservam, o medo da ira divina, o medo do estranho, servindo na perfeição a metáfora de um povo português ainda enraizado nas crendices e nas histórias de assombramentos e maldições... Se mostrar isso recorrendo aos que melhor o sabem fazer, sempre sem cair no cliché, a saber gerir o "suspense", com óptima direcção de actores, era muito bom. O filme ainda surpreende pela qualidade narrativa, provocando algumas surpresas e deixando um final um pouco em aberto, jogando com a discussão do espectador depois do seu visionamento ... As cenas em que se explicam a maldição da casa pelo Padre ancião são deliciosas...

O único dado negativo, alguns senhores ditos cultos (João Bénard da Costa) que escrevem em jornais apelidando os espectadores de cinema como "Coisa Ruim" de mentecaptos, atirando vivas ao novo de Manoel d'Oliveira. O cinema de "Coisa Ruim" não deve nada ao cinema de Manoel d'Oliveira, tomara Portugal realizar muitos mais "Coisas Ruins" e menos cinema de minoria daquele que já irrita. A minoria que subsidie o cinema que quer ver, e deixem que o Estado e outros financiamentos aproveitem o talento dos que sabem dar qualidade e prazer para toda a gente (João Pedro Robrigues, João Canijo, António Ferreira, Marco Martins, etc.). E que tornem Portugal um verdadeiro país de cinema/entretenimento como Espanha e França, por exemplo.

Publicada a 18-03-2006 por Carlos Abreu