Cinecartaz

Rita Almeida (http://cinerama.blogs.sapo.pt/)

Lamechas, aborrecido e previsível

Lamechas, aborrecido e previsível. Na sala cheguei a pensar que a minha irritação se devia apenas a não me ter conseguido abstrair durante quase todo o filme da respiração incomodativa do senhor que se sentou ao meu lado. Mas agora, no silêncio, a má impressão permanece. Eu já tinha visto o livro "Memórias de uma Gueixa" nas primeiras estantes das livrarias e nunca me senti seduzida por aquilo que me parecia uma leitura de Verão. Agora descubro que (ao contrário do que eu pensava quando estava a ver o filme) o autor é o americano Arthur Golden, que conta de ouvir dizer e que foi processado pela ex-gueixa de quem ele diz ter recolhido a informação para o livro. Este facto, aliado à produção hollywoodesca de Rob Marshall ("Chicago", 2002), justificam completamente a aura de falsidade que envolve este filme e que impede qualquer possibilidade de emoção.

Telegraficamente, "Memórias de uma Gueixa" conta a história de Chiyo (Suzuka Ohgo), a filha de um pobre pescador que, em 1929, é vendida para uma casa de gueixas (um género de animadoras sociais). "À la" Dickens, ela é objecto da crueldade da gueixa mais importante da casa, Hatsumomo (Gong Li), que a vê como uma futura rival. É ainda na infância que um encontro com um gentil homem de negócios (Ken Watanabe) irá fazê-la decidir pela vida de gueixa. Já adolescente, Chiyo (Zhang Ziyi) é amadrinhada por Mameha (Michelle Yeoh), que a baptiza de Sayuri e que lhe ensina a arte, pelos seus próprios motivos pessoais.

As personagens não têm profundidade psicológica, não há conflitos dramáticos que captem o nosso interesse, os diálogos são pobres e ridículos (a metáfora sexual da cobra e da gruta ainda me causa arrepios), e tudo em inglês. Deus nos livre que os americanos tenham alguma vez de ver um filme com legendas! Mas também, num elenco de chineses, malaios e japoneses, talvez o inglês fosse de facto o denominador comum. (Mais um ponto a acrescentar a esta fantasia ocidental de uma Cinderela asiática: todos os orientais são iguais!) E vemos grandes actores como Michelle Yeoh ("O Tigre e o Dragão"), Ken Watanabe ("Batman Begins")e Gong Li ("A Tríade de Xangai", "Hero") castrados numa das suas ferramentas essenciais, a palavra. Quando à protagonista Zhang Ziyi ("Hero", "O Segredo dos Punhais Voadores", "2046"), de indiscutível beleza, tem ainda muito para aprender no que à expressividade diz respeito, inclusivamente com a pequena Suzuka Ohgo, que faz o papel de Chiyo na infância.

Mas há que dar a mão à palmatória, Rob Marshall percebe de sumptuosidade. Por isso junta a bela fotografia de Dion Beebe, o design de produção de John Myhre, o guarda-roupa de Colleen Atwood e a música de John Williams. Mas nem só de técnica se faz um filme. E, sem essência, isto é só cosmética, que na manhã seguinte está colada à almofada. Nada disto soa a verdade. É apenas uma bonita mentira, para quem quiser acreditar. Se ao menos mentisse melhor... Nota: 4/10.

Publicada a 27-02-2006 por Rita Almeida (http://cinerama.blogs.sapo.pt/)