Cinecartaz

José Pereira

Pontos de vista

Sei que nem todos podemos gostar dos mesmos objectos e agrada-me que assim seja. O contraditório espevita-nos a mente e obriga-nos a pensar mais e diferente sobre um objecto que aparentemente nos dizia tudo. O esgrimir de pontos de vista desperta-nos a lógica e o raciocínio e obriga-nos a pensar diferente. Todos os pontos de vista me parecem válidos quando devidamente sustentáveis e sérios, o que infelizmente não acontece com alguns críticos nacionais. Tratam os filmes como se fosse os seus vizinhos ou colegas de trabalho, fazendo com eles o mesmo tipo de comentários e críticas. Senão vejamos o exemplo do Sr. Luís Miguel Oliveira.

Começa por falar no plural como se fosse representante de uma instituição, dum grupo, ou quem sabe de todos os espectadores de cinema, diz ele "objectamos o embrulho 'romântico'", para além dele quem mais objecta? E romântico porquê? E desde quando Wagner, Mozart e Beethoven são o expoente do romantismo? E onde é que um voo sobre as matas e pouco sobre o mar leva a comoção se por detrás desse voo não estiver um sentimento? E onde viu ele os rodriguinhos sentimentais? Não conseguirá ele perceber que se está a lidar com o limiar da vida ou se quiserem da morte? Onde consegue ver ele a intenção de fazer um filme feliz? Será no facto do protagonista conseguir o seu objectivo ao fim de 28 anos... morrer! E onde está a leviandade do discurso sobre a eutanásia? Nos vários pontos de vista que temos sobre o assunto? Já agora quem é a jornalista doente? Será a advogada do caso? É neste mar de palavras "pindericamente exibidas" por este crítico que encontro cada vez menos vontade de ler os críticos e maior vontade de ver os filmes.

Ramón Sampedro merece muito mais do que palavras. Merece a admiração de todos porque soube lutar por aquilo que acreditava até ao fim. Se hoje tanto falamos de eutanásia a ele lhe devemos grande parte dessa divulgação. Alejandro Amenábar limitou-se a fazer o que fazem os bons realizadores: libertar as personagens dos seus estigmas. Caro Luís Miguel Oliveira: amar não é dormir com, é estar com, e é pena que não tenha percebido a mestria do filme na sua mais importante revelação...o amor.

Publicada a 26-03-2005 por José Pereira