Cinecartaz

Pedro Maia

Como se fosse invisível...

Colateral faz-me pensar em "Clube de Combate". A certa altura Mark Rufallo pergunta: "então ele é um taxista e entra numa cabine e SHA-ZAAm, é um gigantesco super-assassino? Como é que ele arranja tempo? Mata-os entre serviços?" Realmente, "Colateral", visto desta perspectiva, ganha outro significado, não fosse o facto de outras pessoas verem em simultâneo as duas personagens. Mas aquelas viagens no táxi, aquela dicotomia argumentativa, a forma como as posições tão divergentes acabam por resultar numa simbiose tão eficaz entre os dois personagens não me deixam de fazer pensar no filme de Fincher. Sem dúvida que foi um grande risco para Tom Cruise aceitar este filme, mesmo tendo em conta o seu background de mega-estrela.

Michael Mann é conhecido por ser um excelente cineasta mas os seus filmes muito raramente marcam pontos a nível de bilheteiras. Mas sem dúvida que a mensagem passou, a mensagem de que todos nós temos uma hipótese de mudar e todos temos uma hipótese de fazer algo bom, desde que nos dediquemos a isso. Durante grande parte do filme Tom Cruise age de forma totalmente fria, nunca parando um segundo na execução da sua tarefa. E é naquele momento fatal, em que ele pensa que já conhece totalmente Max, que se dá o revés, em que começam as surpresas, as surpresas que resultam do facto de a presa, de tão acossada, ter mimetizado e desenvolvido todos os instintos do predador. A ver.

Nota: num registo mais pessoal e como atirador de armas de variados calibres (desde rifles de "sniper" até revólveres de repetição simples e metralhadoras de alta frequência) gostaria de salientar o facto de nunca antes (talvez com a sublime excepção de "Heat", também deste realizador) os disparos das armas de fogo me terem soado tão reais, bem como os efeitos destas nos corpos dos atiradores. Nota mais para estes efeitos, que conseguem fazer-nos "entrar" muito mais profundamente no filme.

Publicada a 14-10-2004 por Pedro Maia