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Financeiramente é uma edição de resistência, cinematograficamente é um Fantasporto "muito à Fantas, muito de meter medo". Com o arranque oficial marcado para as 21h15 de hoje, a 24ª edição do Festival Internacional de Cinema do Porto aproveita o embalo que a produção mundial de cinema fantástico parece ter ganho no pós-11 de Setembro para apresentar um cartaz mais "gore" do que o dos anos anteriores, em que a aposta na secção oficial Semana dos Realizadores roubou algum terreno ao género-fétiche do Fantas. Desta vez é ao contrário: prioridade clara ao fantástico, porque é obrigação do festival acompanhar as tendências da produção internacional. E, salienta Mário Dorminsky, responsável pelo Fantasporto, "o cinema fantástico está neste momento em alta nos EUA, na Europa e na Ásia". Desde o 11 de Setembro que é assim: "A produção de cinema que atira as pessoas para fora da realidade voltou a ganhar terreno por causa da crise mundial. E o Fantas reflecte essa viragem que coloca o fantástico no topo das receitas de bilheteira. De resto, muito provavelmente será um filme fantástico, 'O Regresso do Rei', o grande vencedor dos Oscares", continua Dorminsky, que se orgulha de ter sido no Fantas que muitos portugueses travaram conhecimento com Peter Jackson (e, já agora, com os irmãos Wachowski, da saga "Matrix").
Com grande parte do potencial mediático desta 24ª edição do Fantas concentrado na secção oficial de cinema fantástico, títulos como o "remake" de "The Texas Chainsaw Massacre", de Marcus Nispel, a sequela "Beyond Re-Animator", de Brian Yuzna, o "lynchiano" "Cabin Fever", de Eli Roth, o neo-zelandês "The Locals", de Greg Page, e o britânico "The Last Horror Movie", de Julian Richards, que teve estreia oficial em Cannes, parecem à partida para poder capitalizar uma fatia significativa do público fiel ao Fantasporto. Mas filmes mais periféricos como "Ascension", uma produção canadiana de Karim Hussain que conta com a interpretação de Marie-Josée Croze (premiada em Cannes pelo seu desempenho em "As Invasões Bárbaras"), ou o dinamarquês "Fear X", com John Turturro em destaque no elenco e banda sonora de Brian Eno, são algumas das apostas da organização, que também não resiste a destacar o improvável "blockbuster" alemão "Bibi Blocksberg", que superou nas bilheteiras germânicas as performances dos últimos episódios das sagas "O Senhor dos Anéis" e "Harry Potter".
25ª edição em risco
Apesar da aposta assumida no "género maior" do cinema fantástico, é com uma obra ligeiramente mais realista, extra-competição, que o Fantasporto dá esta noite o pontapé de saída para a sua 24ª edição: "Northfork", o filme com que Michael Polish encerra a sua trilogia sobre a América profunda - depois de "Twin Falls, Idaho" e "Jackpot" -, foi a obra escolhida para a sessão de abertura, talvez por pôr em cena actores tão reconhecíveis como Nick Nolte, Daryl Hannah, James Woods, Peter Coyote e Kyle MacLachlan. Uma antestreia absoluta a que se seguirão outras, todas incluídas na secção Première: "Standing in the Shadows of Motown", de Paul Justman, "I'm not Scared", de Gabriele Salvatore, "Innocence", de Paul Cox, e "Auto da Compadecida", do brasileiro Guel Arraes, com Fernanda Montenegro e Lima Duarte. "The Cooler", de Wayne Kramer, encarrega-se da sessão oficial de encerramento.
Lembrando que "cerca de 70 por cento dos filmes seleccionados este ano pelo Fantas já estão comprados para o circuito comercial", Mário Dorminsky espera que a fasquia dos 90 por cento possa ser atingida no final desta edição. Até lá, insiste, o Fantasporto compromete-se a apresentar uma programação que possa abrir portas a cinematografias e cineastas periféricos (ver caixa), com algumas retrospectivas à mistura. O fétiche do Fantas pelo cinema asiático, entretanto, ganha lugar cativo: a secção Orient Express, que aposta na revisão de filmes de culto do Fantasporto como "Audition", de Takashi Miike, e "Sorum", de Jong-chan Yun.
Com a 24ª edição do Fantasporto pronta para arrancar, Mário Dorminsky não esconde que certas "decisões tardias por parte dos patrocinadores e das entidades oficiais e autárquicas" colocaram o festival na corda bamba. Os cortes na lista de realizadores e actores convidados, por exemplo, ajudaram a redimensionar o orçamento, "que estará coberto se o Fantas mantiver um nível de público idêntico ao ano passado".
2005 é que pode vir a ser ainda mais complicado: a organização quer uma edição à altura dos 25 anos de um festival completamente consolidado mas adivinha "problemas graves" devido aos prazos estipulados pelo ICAM para a atribuição de subsídios. "Se tivermos de concorrer pelo calendário estipulado, não saberemos com que verba podemos contar até ao início do próximo festival. Esperemos que o Estado tome uma decisão". Inês Nadais (PÚBLICO)
Fantasporto 2004 - 24º Festival Internacional de Cinema do Porto
PORTO
Rivoli Teatro Municipal. Até 1 de Março. Bilhetes entre 3,5 e 4 euros; livre-trânsitos a 100 euros
| Rouch, Oliveira e o Porto
Não se cumpriu a expectativa que Jean Rouch confidenciava aos jornalistas portugueses sempre que o questionavam sobre o seu amigo Manoel de Oliveira: "Ele tem mais nove anos do que eu, está sempre a filmar, e representa também a minha esperança de vida e de continuar a fazer filmes".
De facto, no momento em que Rouch abandona este mundo, Oliveira está novamente no "plateau" de um novo filme, em Tomar, onde há dias iniciou a rodagem de "O Quinto Império, Ontem como Hoje", baseado na peça de José Régio "El-Rei Sebastião".
O realizador português foi ontem surpreendido com a notícia da morte do seu amigo de há várias décadas, e, abatido, não quis fazer qualquer declaração. Mas continua certamente válido aquilo que uma vez disse ao PÚBLICO, em 1992, sobre o cineasta francês: "Considero Jean Rouch uma figura maior do cinema mundial. A ele se deve o 'volte-face' da narrativa cinematográfica, quer no aspecto formal quer no etnológico, verdadeiramente revolucionário, em especial pela sua perspectiva ética, no respeito dado à cultura de certas comunidades africanas".
O vínculo de amizade e de cumplicidade cinematográfica de Rouch com Oliveira era o vértice da admiração que o cineasta francês dedicava ao Porto. Facto que está documentado na belíssima curta-metragem "En une Poignée de Mains Amies" (1996), que Rouch rodou na cidade, sobre um poema do próprio Oliveira, numa produção do Instituto Francês do Porto (IFP) e da autarquia para assinalar o centenário do cinema português. Nesse filme, Rouch passeia a sua câmara, e passeia-se a si próprio ao lado do realizador de "Douro, Faina Fluvial", por vários lugares portuenses: a Ribeira, a ponte de Eiffel (que Rouch, engenheiro de pontes de formação, visitava sempre que cá vinha, e que considerava mesmo a obra-prima do seu concidadão), a Faculdade de Arquitectura desenhada por Siza Vieira... Para além do cinema, a arquitectura era o outro elo da cumplicidade Rouch-Oliveira: coube-lhe, aliás, apadrinhar o doutoramento "honoris causa" do realizador português pela Faculdade de Arquitectura do Porto, em 1889.
Jean Rouch era uma visita frequente do Porto, e poucos saberão que foi na sequência da sua primeira deslocação à cidade, em 1975, a convite do director do IFP na altura, Jacques d'Arthuys, que viria a nascer a importante escola de documentarismo e de cinema directo do Atelier Varan, ainda hoje em actividade em Paris. Nessa visita ao IFP, Rouch apresentou filmes e dirigiu um "atelier" de cinema documental, trabalho a que daria sequência, dois anos depois, em Moçambique, em conjunto com o próprio d'Arthuys e de... Jean-Luc Godard, que se tinha deslocado a este país na sua demanda de novos temas e novas estéticas. E foi deste encontro que, depois, nasceu o "atelier" parisiense. Sérgio C. Andrade (PÚBLICO)
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