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  24/10/2003

Ver Kubrick de olhos bem abertos

   
 

Se perguntarmos a cinéfilos de menos de 40 anos quem preferem entre os realizadores americanos (e não só), existem fortes probabilidades de o nome de Stanley Kubrick aparecer no topo da lista. Por isso mesmo, uma retrospectiva integral, como a que a Cinemateca Portuguesa agora lhe consagra (a partir de dia 30, com o documentário "A Life in Pictures", de Jan Harlan) precisa menos de justificações do que de uma reflexão serena sobre as contingências da recepção cinematográfica, fazendo de Kubrick uma espécie de Orson Welles de quem nunca viu (bem) Welles, deixando, porventura, na sombra os nomes maiores do cinema clássico: Hawks ou Hitchcock; Griffith ou Von Sternberg; Lang ou Ford, entre outros.

Claro que as preferências geracionais e as consequentes alterações de gosto resultam de maior visibilidade de alguns filmes em detrimento de outros. Torna-se óbvio que a obra de Kubrick toca em pontos sensíveis da modernidade e que se tornou mais ou menos consensual.

Dito isto, uma visão desapaixonada de Kubrick não lhe diminui o valor, mas expõe os perigos da sobrevalorização. Começando com dois filmes de pequeno orçamento, o pouco visto "Fear and Desire" (1953) e "Killer's Kiss" (1955), Kubrick atinge o primeiro ponto alto da sua carreira com "The Killing/ Um Roubo no Hipódromo" (1956), fabuloso filme negro, a "abusar" de uma câmara nervosa e a patentear um desejo incontornável de objectividade narrativa.

"Horizontes de Glória" (1957) possui a vantagem de apresentar, muito cedo, o melhor e o pior do que viria a ser cunhado como o "estilo Kubrick": grande rigor e seriedade no tratamento de um tema complexo, afrontando a instituição militar, mas um certo exibicionismo técnico, uma pompa excessiva, que desviava a atenção para os efeitos visuais. "Spartacus" (1960) encaixava na voga dos "pepluns", mas dava ao género uma grandeza e credibilidade histórica e narrativa raras vezes alcançada. Não sendo das obras que os "kubrickianos" incondicionais apontam como fundamentais, ganhou muito com o tempo.

E chegamos ao núcleo duro da obra, apenas oito filmes em 37 anos, justificando, para os seus admiradores, a mais-valia de um perfeccionismo maníaco: entre "Lolita" (1962), um belíssimo contraponto possível ao controverso romance, "politicamente incorrecto", de Nabokov, e "De Olhos Bem Fechados" (1999), um extraordinário exercício de estilo, que questionava a própria essência do cineasta como representante do "moderno" em cinema, estabelecia-se o grande cânone.

E é neste espaço canónico que surgem as maiores divergências. Hoje, o muito amado e citado "A Laranja Mecânica" (1971) surge como um exercício de descabida histeria, ao serviço de uma violência gratuita, que, se espelha uma época, fica demasiado preso a ela. "The Shining" (1980) encalha nos trejeitos insuportáveis de Jack Nicholson e resulta amaneirado, enquanto "Full Metal Jacket/ Nascido para Matar" (1987) fica aquém das suas ambições de reformular o filme-de guerra, como género.

Por outro lado, "Barry Lyndon" (1975), sobre o qual recaíram na época acerbas críticas de excessiva e vazia estilização, aposta na adequação de um rebuscado aparato formal (a famosa iluminação por velas no centro da imagem) a uma novela menor de Thackeray. O efeito do "pastiche" cinematográfico sobre um "pastiche" literário resulta numa obra-prima de ironia.

Intocados na sua importância histórica e estética continuam "2001 - Odisseia no Espaço" (1969), algures num espaço arriscado entre a fição e o ensaio, e a grande sáti

ra política, "Dr. Estranho Amor" (1963). Que fazer com Kubrick em 2003? Revê-lo com cuidado, de olhos bem abertos, e dar-lhe o lugar que lhe pertence. Nem mais, nem menos.

Mário Jorge Torres (PÚBLICO) 

 
   
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