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  2/4/2004

Kill Bill 2 ovacionado de pé numa preview

   
  "É um filme muito diferente, o conteúdo, o estilo. Não é a bisarma de acção que era o primeiro. Toda a gente fala imenso, aquilo a que as pessoas estão habituadas com o Quentin. É melhor do que o primeiro". Quem fala assim de "Kill Bill 2" é David Carradine. E se a sua opinião pode ser suspeita (até pela relevância que agora ganha em relação ao volume 1), a verdade é que os "chosen few" que já viram o filme não fazem por menos e anunciaram: obra-prima.

E, pelos vistos, "Kill Bill 2" é mesmo bastante diferente do antecessor. Em vez do frenesim visceral deste, a austeridade parece estar aqui na ordem do dia, com Tarantino a optar por acrescentar profundidade e emoção à magistral coreografia de corpos que alimentava o desejo de abstracção de "Kill Bill". Não que a violência (agora mais realista, não tão excessiva) não continue presente, mas o outro elemento definidor do cinema de Tarantino, o virtuosismo cortante dos diálogos, terá sido puxado para primeiro plano, para complexificar as personagens e desenvolver as relações entre elas.

O adicionar de contexto às rivalidades, para que uma história de traição, perda e vingança atinja dimensão trágica, fará todo o sentido se pensarmos nos dois filmes como a progressão natural de um objecto que se queria único. Alguém já descreveu o resultado como um épico shakespeareano centrado num universo de "exploitation", amor e sangue juntos e indivisíveis, como se a primeira parte fosse a carne de um corpo e esta a alma, o coração. Ou se preferirem: duas metades de um mesmo todo, que se completam como num casamento perfeito.

Há três semanas, no final da primeira "preview", em Austin, no Texas, a assistência tributou a Tarantino uma ovação em pé, durante cinco minutos. Por isso, percebe-se que nas poucas críticas que já circulam pela "net", apesar da vontade em não estragar possíveis surpresas, seja difícil não revelar detalhes, como se o desejo de partilhar um segredo entusiasmante fosse quase impossível de resistir.

Assim, conhecem-se já alguns pormenores do que vai acontecer, quando a Noiva (Uma Thurman) continuar a riscar os nomes que sobram na lista de vingança, até chegar a Bill (Carradine). A morte deste não será grande surpresa (o título dá uma ajuda...), mas talvez já o seja o facto do confronto final (em causa está, entre outras coisas, o destino da filha que a Noiva julgava morta) entre os antigos namorados, sentados a uma mesa, não obedecer às regras do grande espectáculo, desenrolando-se de forma rápida. Ou a revelação de que a morte de Bill nos afectará, tal a atracção que o carismático assassino treinado por samurais provoca. "É um tipo sedutor. Sim, mata pessoas como forma de vida, mas... tem uma certa nobreza", diz Carradine, que supostamente irradia "coolness" no filme, com direito a vários monólogos com a "marca Tarantino", incluindo um sobre "Superman".

Um capítulo inteiro será dedicado ao ataque a Thurman no dia do casamento e outro - contado por Bill com a ajuda de uma flauta, ao estilo de "Pedro e o Lobo" - apresentará o seu cruel mestre nas artes marciais, Pai Mei ("Sobrancelha Branca", personagem clássica de vários títulos produzidos pelos lendários Shaw Brothers). Entre outras delicadezas, obriga-a a utilizar pauzinhos para comer arroz com as mãos partidas... Mas há mais: uma personagem é enterrada viva e vamos conhecer o homem que criou Bill, um chulo manhoso do Terceiro Mundo chamado Esteban (interpretado por Michael Parks, que no primeiro filme foi o xerife que descobria Uma meio morta no vestido de noiva).

E aqueles que saíram de "Kill Bill" a pensar no que andava por ali a fazer Michael Madsen, podem descansar pois ficarão a saber tudo (ou quase) sobre Bud, os pecados do passado e a vida actual: amargurado, a mascar tabaco e a ouvir música num atrelado minúsculo, segurança num clube de "strip" rasca. E os que deliraram com as sequências de acção não desesperem: também terão por onde se agarrar. Por exemplo, haverá uma luta - brutal e violenta, numa caravana no meio do deserto - entre a Noiva e Elle (Daryl Hannah) que tem sido comparada à de John Wayne e Victor MacLagen no "Homem Tranquilo" de Ford...

Como um filme de Tarantino não seria o mesmo sem a música, destaque ainda para a banda sonora, que desta vez vai de Morricone a Johnny Cash, passando por Shivaree e Bacalov, além de composições adicionais do amigo Robert Rodriguez (ao que parece, contribuem para que aqui se sinta mais o "feel" de "western spaghetti", ao contrário do maior sabor asiático anterior). E entretanto, Quentin até já fala em prequelas (versão "anime", como o episódio da origem de Lucy Liu no primeiro volume) e sequelas (quinze anos mais tarde, com a filha de Vernita como protagonista e a Noiva numa cadeira de rodas)...

V.T.M. (PÚBLICO) 

 
   
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