É a história de uma família italiana do fim dos anos 60 até aos nossos dias. No centro da história, dois irmãos: Nicola e Matteo. No início, partilham os mesmos sonhos, as mesmas esperanças, leituras, amizades. Até ao dia em que o encontro com uma jovem rapariga com problemas psíquicos ditará o destino de cada um e separará os seus caminhos: Nicola decide estudar psiquiatria e Matteo abandona os estudos e entra na polícia. Para além dos dois irmãos, a família é ainda composta por duas irmãs, Giovanna e Francesca, o pai e a mãe, os amigos, as companheiras, os filhos... Todos eles vão fazer reviver acontecimentos e lugares que tiveram um papel crucial na história de Itália: das cheias de Florença à luta contra a Máfia, dos grandes jogos de futebol contra a Coreia e a Alemanha às canções que marcaram gerações, da cidade de Turin dos anos 70 à Milão dos anos 80, dos movimentos estudantis ao terrorismo, da crise dos anos 90 à tentativa de inovação e construção de um país moderno. As personagens perseguem os seus sonhos atravessando a História: crescem, magoam-se, criam novas ilusões em que apostam todas as suas energias. "La Meglio Gioventù - A Melhor Juventude" - título de uma recolha de poemas de Pasolini mas também uma velha canção dos caçadores dos alpes italianos - é o fresco de uma geração que, apesar de todas as suas contradições, ingenuidade ou até mesmo violência deslocada, se esforçou por tornar o mundo em algo um pouco melhor. (O filme, com duração aproximada de seis horas, é exibido em duas partes.)PUBLICO.PT
De meados dos anos 60 à Primavera de 2003 - é este o arco temporal de "A Melhor Juventude", espécie de saga familiar e intimista com fôlego suficiente para "engolir" 40 anos de história da Itália. Será preciso dizer, até para explicar a duração, o curioso "formato" em que o filme será exibido (duas partes de três horas cada), que o projecto de "A Melhor Juventude" começou por ser uma série de televisão em quatro episódios, e que foi já com a produção em andamento que uma mudança de estratégia da direcção de programas da RAI deu origem a uma reformulação.
A primeira constatação a fazer é que "A Melhor Juventude" é daqueles casos que chega para importunar os formatos de programar e os hábitos de ver cinema: é um filme em duas jornadas, de três horas cada (sobre os últimos 40 anos da História italiana, através da história de dois irmãos e das personagens que com eles se cruzam), que começou por ter como destino a televisão mas que, ainda na fase de produção, foi "desviado" para as salas. É essa singularidade que o torna também um caso difuso: nem telefilme, nem épico, habita um espaço no meio, onde a relação entre personagens e acontecimentos históricos nunca é sublinhada, antes enunciada, onde germina um, comovente, desejo de pacificação (a Itália e a sua História) mas de onde está ausente o arrebatamento - e por isso às vezes é difícil de decidir entre subtileza ou ilustração. Não será por acaso que duas das personagens mais interessantes de "A Melhor Juventude" são arrumadas no capítulo da "incógnita": o irmão suicida e Giorgia, a "louca". São figuras centrais, mas é como se não houvesse espaço, ou ambição, para elas.
A realidade contém muitas vezes intensidade dramática suficiente para que não deva ser tratada cinematograficamente de outra forma que não seja a de viver dentro dela e contar a respectiva história. Penso ser precisamente isto que este filme tocante até ao arrepio e encantador até à lágrima, faz. É um filme de muitas memórias revisitadas, de muitas emoções mas também de uma reflexão funda e serena. É um filme obrigatório para quem viveu aqueles tempos e para quem os não viveu, para saber como foi e sobretudo como se chegou até aqui. É até um filme recomendável para críticos que o deveriam voltar a ver de uma forma descomprometida e liberta de clichés, antes de produzirem opinião. Neste como...