Café e Cigarros Título original: Coffee and Cigarettes De:Jim Jarmusch Género: Comédia, Curta Classificacao: M/12
EUA, 2003, Preto e Branco,
Recomendado
pelo Cinecartaz
argumento
Iggy Pop e Tom Waits, os White Stripes, Bill Murray e os Wu-Tang Clan, Alfred Molina e Steve Coogan, Roberto Benigni e Steven Wright e ainda Cate Blanchett são alguns dos músicos e actores que Jim Jarmusch sentou a uma mesa a discutir café e cigarros. Fotografados a preto (café) e branco (cigarros) falam sobre os efeitos (e usos) da nicotina, o vício do café, sobre tudo e sobre nada, sobre gelados de café e teorias da conspiração à volta de Elvis, numa série de conversas mais ou menos improvisadas, mais ou menos absurdas, mais ou menos pessoais. PUBLICO.PT
Alguém disse que uma rapariga, um rapaz e uma câmara, tanto bastava para que pudesse haver cinema. Não há nenhuma história de amor nas 11 vinhetas que compõem na sua forma final "Coffee and Cigarettes", mas essa rememoração de quanto um mínimo de meios pode ser fértil caso haja desejo de cinema é um dos dados fulcrais do filme. Só por si, tanto deveria bastar para fazer dele um objecto de consideração.
Foi há já bastante tempo que Jim Jarmusch começou a filmar histórias de cafés e cigarros. A ideia, no princípio, era ir filmando uma série de curtas onde as personagens (sempre interpretadas por gente conhecida) se encontravam numa mesa de café, entre chávenas e cigarros. O primeiro "Coffee and Cigarettes" apareceu em 1986, rodado na altura de "Down by Law", e tinha como protagonistas Steven Wright e Roberto Benigni. Em 1989 apareceu o segundo, rodado em Memphis (onde no mesmo ano Jarmusch dirigiu "Mystery Train"), com Steve Buscemi e os irmãos de Spike Lee (Joie e Cinque). E em 1993 o terceiro, com Iggy Pop e Tom Waits.
Dá para fazer um "top" das conversas favoritas sobre café e cigarros: Alex Descas e Isaach de Bankolé, porque não chegam a ultrapassar o incómodode estar juntos; Alfred Molina e Steve Coogan, encontro que é o que mais se parece com um "sketch", em que a ideia de "personagem" mais se sobrepõe à "persona" dos actores; pela razão inversa, Iggy Pop e Tom Waits, que são Iggy e Tom ou a ideia que temos deles; os White Stripes, porque Jarmusch capta a proximidade ao conto de fadas que existe na música de Meg e Jack; e, "last but not the least", Taylor Meade e Bill Rice, fantasmas do "underground" dos anos 70. Há mais gente por lá, de Cate Blanchett a Benigni, o dispositivo repete-se e cansa, o essencial só se evidencia a espaços. Mas é verdade que o conjunto, e a memória dessa experiência (fica um aviso: não é preciso beber café e fumar para a saber viver...), é mais marcante do que cada uma das partes.
É divertido observar as diferentes personalidades e conflitos de personalidade, pensar até que ponto é encenação ou naturalidade. Tem momentos divertidos, outros entediantes. A Cate Blanchet é um momento alto, pelo belo trabalho que mostra. É de facto duas pessoas, não como essa vaga de novelas de gémeos mal acabadas... O último senhor (de cujo nome não me lembro) é enternecedor. Como sonhador assumido, penso: "Será que serei assim daqui a uns anos...?". E depois o Tom Waits. Um dos meus artistas admirados, desilude-me um pouco, pois parece arrogante e provocador de distúrbios (distúrbios de mente do pobre e simples Iggy). Mas no final, a tirada apaziguadora, quando sózinho mostra que afinal...