Segunda longa-metragem de Tiago Guedes e Frederico Serra, depois de "Coisa Ruim" e, tal como este, com argumento do jornalista e romancista Rodrigo Guedes de Carvalho, "Entre os Dedos" é a história de um conjunto de pessoas que agora se limitam a sobreviver dentro do destino que lhes coube. Mas enquanto uns desistem e deixam cair os braços, outros resistem, esbracejam e lutam, recusando-se a deixar-se conformar.
Depois de uma derrocada numa obra, Paulo perde o emprego porque denunciou a situação. A sua relação com a mulher vai piorando dia após dia. Anabela, a irmã de Paulo, vive com o pai de ambos, que sofre de síndrome do Ultramar. Bela é enfermeira e o único conforto de um doente terminal.
O filme é protagonizado por Filipe Duarte, Isabel Abreu, Lavínia Moreira e Gonçalo Waddington, entre outros.PÚBLICO
Quem esperava, depois de "Coisa Ruim", um filme de género, uma reviravolta estilística no cinema português recente, ou ainda surpresas de argumento, desengane-se: "Entre os Dedos" opta por um realismo acabrunhado, usando o preto e branco como manifestação de indistinta tristeza, numa revisita, quase em tom de reportagem, ao quotidiano urbano do subúrbio de uma cidade.
Esta dupla, Tiago Guedes e Frederico Serra, começa a habituar-nos... Ou dito de outra forma: não fazendo questão de explicitar, com as palavras e com as imagens, discurso algum sobre "autoria", Guedes e Serra, com a cumplicidade do argumentista Rodrigo Guedes de Carvalho, dedicam-se a experimentar. O terreno onde o fazem é híbrido, nem tanto ao mar (o cinema dito de "autor"), nem tanto à terra (o cinema dito "comercial"). E começamos, de facto, a habituar-nos a encontrá-los onde não os esperamos. (Ou dito de outra forma ainda: foi longo o caminho desde uma curta chamada "O Ralo", de 1999).
Espreitamo-los através de portas, vemo-los através de vidros, colamo-nos aos rostos deles, perto de um olhar vazio, de um gesto cansado. Respiramos com eles, o mesmo ar saturado, o mesmo silêncio pesado.
Há quem fale em "fervoroso exemplo de neo-realismo português" (é o crítico da "Hollywood Reporter") a propósito de "Entre os dedos", filme de Tiago Guedes e Frederico Serra, a partir de um argumento de Rodrigo Guedes de Carvalho. Mas não foi isso que eles quiseram fazer - pelo menos intencionalmente. "Nem pensámos nisso. Evitamos a todo o custo rotular ou pôr em caixinhas aquilo que vamos fazendo", diz Tiago. "Da nossa boca nunca sairia essa expressão, com todo o respeito que temos ao neo-realismo", reforça Frederico.
Entre os dedos é um filme neo-realista onde o espectador é confrontado com a frágil condição humana. A crueza com que a vida quotidiana é apresentada reflecte uma sociedade cada vez mais descrente no futuro.
Paulo, a personagem central é o exemplo de um ser comum, que após uma decisão de consciência vê toda a sua vida ruir. A impotência e o desânimo que nele se instala vencem a sua capacidade de resistência, levando-o ao desespero. No entanto Paulo não é o único exemplo de desistência, outras personagens surgem que também elas há muito que perderam a esperança. Anabela, irmã de Paulo está no pólo oposto, ela simboliza a força e a capacidade de subverter o negativismo instalado. Anabela é uma...