Lúcia (Anabela Moreira) é uma malnascida, uma mal-amada, a eterna viúva do seu pai. Enlouquecida, maltratada e humilhada, sobrevive enlutada com a lembrança do crime e da traição da mãe, grita a sua dor inconsolável para não dar descanso nem paz aos assassinos do pai.
Vive na esperança desesperada do regresso do irmão para cumprir a promessa de vingar o sangue do pai.
Em "Mal Nascida", apresentado no Festival de Veneza, João Canijo volta, à semelhança do que fez em "Noite Escura", a basear-se nas tragédias clássicas (aqui o mito de Electra) para pintar o lado mais negro de Portugal.PÚBLICO
João Canijo volta a assinar uma tragédia clássica no Portugal profundo, um crime de sangue a ensombrar uma família de emigrantes perseguida pela desgraça - ou que talvez construa a sua própria desgraça ao tentar desesperadamente escapar-lhe, num turbilhão opressivo e claustrofóbico delimitado pelas quatro paredes do café onde uma filha em luto perpétuo por um pai há muito falecido (impressionante Anabela Moreira) confronta quotidianamente a venalidade e o egoísmo da mãe e do padrasto (notáveis Márcia Breia e Fernando Luís). Mas serão eles os únicos a construirem a sua vida sobre uma mentira? Ou Lúcia é digna filha de seus pais?
O filme anterior de João Canijo, "Noite Escura", tinha colocado a fasquia muito alta: não só se adaptava, com enorme rigor, "Ifigénia em Áulis", de Eurípedes (com reminiscências de "Agamémnon", a primeira jornada da "Oresteia" de Ésquilo), a uma realidade portuguesa contemporânea, como se atingia os píncaros da acção trágica numa sufocante construção de sucessivas peripécias servidas por um naipe de actores em que pontificava a versatilidade de Beatriz Batarda.
Aceita-se hoje a ideia (para a qual muito contribuíram os românticos quando definiram a singularidade da visão genial como critério do valor artístico) de que cabe à arte mostrar aquilo que as pessoas, na sua experiência quotidiana, não conseguem ver: a beleza, a complexidade das coisas a que nos habituámos, a fragilidade de certos valores e ideias, etc.. A julgar pelo filme mais recente de João Canijo, o Mal Nascida, parece existir, no caso de algum cinema português, a intenção de mostrar um Portugal que os Portugueses não conseguem ver devido a uma certa educação, a uma certa história. A mal nascida é aquela cuja vida constitui a perfeita antítese do sentido etimológico do seu nome: Lúcia.