Depois de um trabalho em Londres que corre mal, dois assassinos são enviados para a pacata Bruges, na Bélgica, para desaparecerem do mapa por uns tempos. Ray (Colin Farrell) odeia a cidade e está irritado com o insucesso do trabalho, enquanto Ken (Brendan Gleeson), olhando o colega de forma paternalista, se deixa levar pela calma e beleza daquela mítica cidade belga de fortes traços medievais. Durante a estadia, sucedem-se encontros estranhos quer com turistas quer com habitantes, um actor norte-americano anão, prostitutas e uma misteriosa mulher. As férias acabam quando o chefe, Harry (Ralph Fiennes), telefona a um deles e ordena-lhe que assassine o outro. As ruas labirínticas de Bruges tornam-se então um cenário surrealista de perseguições.PÚBLICO
Se mais nada, "Em Bruges" tem alguns elementos pouco habituais. Não há assim tantos filmes de "gangsters" em que os vejamos (aos ditos "gangsters") a visitar exposições de pintura flamenga, por exemplo, e obviamente a cidade belga dá um belo décor, nem por isso mal aproveitado.
A beleza costuma estar nos olhos de quem vê, como se diz, e é por isso que essa cidadezinha quase de conto-de-fadas que é Bruges é uma maravilha para Ken e uma seca brutal para Ray. Ken passeia, vê as vistas, sobe às torres dos campanários, lê clássicos da Penguin. Ray resmunga, quer ir para o pub beber umas bjecas, engatar miúdas numa rodagem que por ali anda.
Tudo parece estar já feito, a nível do "thriller", como macro-género dominante no cinema contemporâneo. A novidade em "Em Bruges" passa por duas vertentes principais: por um lado, o tom quase paródico a inserir na acção personagens complexamente divertidas, e, por outro, o cuidado extremo com o grafismo estilizado da violência, quase uma BD franco-belga, com a transcendente beleza de Bruges, a Veneza do norte, em pano de fundo.
Um filme que não é propriamente uma comédia mas que possui um humor simples e constante. A história baseia-se nos dilemas de dois assassinos escrupulosos e a forma como reagem a uma cidade repleta de cultura. A acção da trama surge quando chefe de ambos, Harry, regressa a Bruges para matar Ray, após uma ordem não cumprida por Ken. É então que o filme se torna mais negro mas ao mesmo tempo inesperado, conseguindo assim, prender a atenção do espectador num misto de tensão e curiosidade.
Um filme bem conseguido, em que certamente qualquer espectador sairá satisfeito da sala, até mesmo o mais exigente.