Estúdios: Rézo Productions FRA, 2004, Cores, 115 min.
argumento
Em 1936, a Frente Popular e a Guerra de Espanha agitam os espíritos. Fiodor, jovem general do exército do czar refugiado em Paris com a esposa grega Arsinoé, participa no ambiente instável. Enquanto ela simpatiza com os vizinhos comunistas, ele efectua viagens secretas e gosta de inquietar quem o rodeia. Não esconde que é espião, mas dissimula para quem trabalha. Será espião dos Brancos anti-comunistas, da jovem União Soviética, dos nazis, de todos? Será que ele próprio sabe? Ele ama a mulher, mas parece disposto a sacrificá-la em nome de um sórdido conluio. Livremente inspirado numa história real, não totalmente esclarecida, "Agente Triplo", de Eric Rohmer, é uma história de espionagem vertiginosa, mas também um conto moral sobre a dissimulação e a mentira. PUBLICO.PT
Perguntei(-me) uma vez: poderia escrever "A evidência é a marca do génio de Jacques Rivette"? Era um princípio de jogo. "A evidência é a marca do génio de Howard Hawks" foi uma das célebres hipérboles críticas dos da "política dos autores" dos "Cahiers du Cinéma" dos anos 50, o autor sendo Jacques Rivette, cineasta dos que mais profundamente admiro e um daqueles em que mais se me afigura uma "marca de génio", que, contudo, não é certamente manifesta em "evidências".
Rohmer retoma a linha do anterior "A Inglesa e o Duque", adoptando, de novo, a História como cenário de fundo (outra vez idealista, outra vez pré-revolucionário, outra vez cínico), e os golpes de bastidores e as maquinações políticas como epicentro. Teatro de enganos disfarçado de falso filme de espionagem, tem, como "A Inglesa e o Duque", uma heroína a carregar aos ombros a sua visão e a prestar contas por isso - mas, aqui, a ser vítima, mais do que do seu idealismo puro, da ausência dele no implacável Rohmer. Não é um filme de época, é um filme que só é possível agora.
Ligado à geração dos Cahiers du Cinéma, Éric Rohmer fez sempre uma carreira à parte, agrupando os seus pequenos filmes, quase artesanais em ciclos temáticos: primeiro os Contos Morais, em que avultam "A Minha Noite em Casa de Maud" (1969) ou "O Joelho de Claire" (1970); depois as Comédias e Provérbios, com filmes, como "A Mulher do Aviador" (1980) ou "Paulina na Praia" (1983) em destaque, cruzando o mundo barroco e precioso de Marivaux com os artifícios amorosos herdados de Alfred de Musset; finalmente, os Contos das Quatros Estações (1990-1998), reunindo o mesmo gosto pela cultura enquanto resíduo e os jogos de uma sentimentalidade, filtrada pelo acaso dos encontros e desencontros de amor.