Cinecartaz

Patrícia Mingacho

Berlim, o amor e a vida

Há filmes cujo título transportamos connosco, nunca os vimos mas, de tanto termos ouvido falar sobre eles, é como se essa tela já tivesse, por nós, sido perscrutada. “As Asas do Desejo” teve esse efeito em mim e, apesar de outros filmes de Wim Wenders me terem entregado a um tédio terrível, sabia que com “As Asas do Desejo” o processo seria diferente. A voz que nos narra a história, a sua cadência, numa Berlim a preto e branco tolda a tela de magia. Berlim, uma cidade pela qual me apaixonei, embora não tendo visto “As Asas do Desejo” mas, depois de a ver sob a lente de Wim Wenders, a sua beleza decadente ganha um novo encanto. Há filmes que merecem ser vistos e revistos e este, pela sua densidade, pela sua beleza merece que o guardemos connosco. Vi-o, numa semana, duas vezes e, de cada vez que saí da sala de cinema, tive o mesmo encanto, a mesma sensação que o amor nos pode salvar e se o amor não nos salvar, a arte e a capacidade que temos para a contemplar terão a capacidade de tornar os dias menos vazios e as horas e a sua cadência um constante deslumbramento perante a beleza que é viver. Há filmes que nos agarram, que transportamos vezes sem conta no pensamento. Há imagens que gostaríamos que fossem parte do nosso viver, palavras que fossem parte do nosso dizer, sentimentos que de tão universais também são nossos. Ontem ao sair do cinema, tive a certeza que não queria sair daquela tela, tive a certeza que, mais uma vez, o meu tempo tinha sido pleno porque a arte, enquanto projecto maior da nossa existência, é capaz de nos levar numa viagem mágica, plena de sensações onde a única sensação que não temos é a de vazio. E ontem, mais uma vez, tive a sensação que os sentimentos, para além de universais são intemporais, as nossas demandas e anseios estão e estiveram lá. Ontem, tal como hoje, é preciso relembrar e os tempos no assombro dos dias são imagens que vemos repetir. "Agora só penso no presente. Que tem a paz que a longo prazo não causa entusiasmo? No hoje tal como no ontem de Wenders há espaço para este questionar.

Publicada a 08-02-2017 por Patrícia Mingacho