Cinecartaz

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No coração (da minha) escuridão

É bem no âmago da minha escuridão que sinto desconforto em comentar este filme. Um bom filme, que gostei de ver, mas que me soube a pouco. Um bom filme, quando descreve o doloroso processo de tomada de consciência de alguém em sucessivos confrontos com as suas contradições e que vê ruírem todas as expectativas de contribuição para um mundo onde se viva melhor e mais dignamente, nomeadamente através da instituição religiosa a que pertence, verificando que esta se deixa enredar na teia de compromissos entre os propósitos da doutrina e a recusa em afrontar os detentores do poder político e financeiro pelas suas responsabilidades na exploração desmedida dos recursos naturais, com consequências que vão sendo constatadas em todo o planeta. Soube-me a pouco porque Paul Schrader, o realizador, foi autor do argumento de "Taxi Driver" (1976), um filme que me interpelou com veemência, contribuindo para a compreensão de que a vida não se resume a vilões por um lado e vítimas por outro. As vítimas podem alimentar os vilões (às vezes até os elegem para seus dirigentes). Uma das personagens mais importantes do filme é o jovem “ambientalista radical” que coloca questões de difícil resposta. Já não se trata de grupos sociais que oprimem outros, mas sim de que todos têm a sua quota parte de responsabilidade nos crimes ambientais que se sucedem. A começar por não se querer compreender que as alterações climáticas (apenas o princípio da violentíssima resposta que a natureza dará) têm que ver com modos de vida (e, eventualmente, com supostas conquistas civilizacionais) que devem ser questionados. Se o colete-bomba não é solução, também não o será o suicídio. Deverá haver outro(s) caminho(s). Depois de "Taxi Driver" (e de "Soylent Green", a que assisti, espectador único de uma sessão da tarde no antigo cinema do Apolo 70), esperava mais. Esperava, e espero, perceber como não ser um vilão, apesar do estatuto de vítima.

Publicada a 20-07-2018 por cdds