Cinecartaz

Fernando Oliveira

No coração da escuridão

Um filme difícil de interiorizar. Para quem, como eu, é ateu, a noção de fé, a verdade absoluta de Deus, um Deus ausente ou que, parece, trata a sua criação com uma total indiferença, são coisas inconcebíveis, e incompreensíveis. E este é um filme que só poderia ter sido feito por alguém que já experienciou os mistérios da fé. Alguém como Paul Schrader, que habitou uma comunidade calvinista puritana e fundamentalista, que depois se “perdeu”, mas que nunca deixou de confrontar a religião. É, também, um filme que assusta. Sobre um homem, em agonia física e espiritual que percebe que, tal como ele, a sua igreja, o mundo, estão também doentes.
O reverendo Ernst Toller (Ethan Hawke); que tinha sido capelão militar, e perdido o filho na guerra do Iraque, incapaz de se perdoar por isso, a mulher deixou-o; é o pastor de uma pequena comunidade perto de Albany, a sua igreja é tanto um destino turístico como lugar de oração. Mas a igreja tem uma história, as comemorações dos 250 anos estão aí. Entretanto, uma jovem mulher, Mary (Amanda Seyfried), pede-lhe ajuda, ela e o marido são ambientalistas, ela está prenhe e o marido não quer que a criança nasça num mundo a caminho de uma catástrofe ambiental. Conversam. Mais tarde o homem marca um encontro num parque. Toller encontra-o morto. Tinha escolhido o suicídio. Ao reverendo “deixa” um colete com explosivos, e uma revolta crescente contra a degradação ambiental.
É um filme de pequenos gestos e muita quietude, de palavras e de muitos silêncios, um filme sobre a intimidade entre um homem e Deus, a verdade e as dúvidas nessa intimidade – “Deus perdoar-nos-á pelo que fizemos à sua criação?”. Perante a indiferença da igreja e do mundo a esta questão, o reverendo resolve actuar: o sangue lava os pecados do mundo. O filme não tem medo da transcendência: há aquele momento em que os corpos de Ernst e Mary comungam, e levitam sobre o que é terreno; há o beijo final, onde o sangue e o sacrifício são, talvez, substituídos pelo milagre do amor. Talvez, porque há um corte abrupto e o filme acaba…
E sem esperarmos por isso, um sopro, a memória do Cinema de Bresson, de Dreyer (Schrader escreveu um livro sobre eles, juntando-lhes Ozu), e de Bergman chega ao Cinema moderno. Na sua forma (e há o 4:3 que enclausura os personagens), mas também pela introspecção e religiosidade. Dois actores em estado de graça ajudam a sublinhar a ambiência do filme.
O problema do filme é Paul Schrader, notabilíssimo argumentista, é muito mais limitado como realizador. Perece-me sempre incapaz de concretizar totalmente em imagens aquilo que escreve, e o Cinema é a arte de contar histórias com imagens. Só por isso é que esta história não é também um filme genial.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 24-07-2018 por Fernando Oliveira