Cinecartaz

José Miguel Costa

5 estrelas

Paul Schrader (idolatrado como argumentista - "Taxi Driver" e "Touro Enraivecido" constam no seu currículo - e incompreendido enquanto realizador) oferece de bandeja a Ethan Hawke o papel visceral da sua vida em "No Coração da Escuridão". De igual modo, com este drama algo surrealista (que pode ser percepcionado como uma parábola à decadente América do Trump) consegue dar uma chapada de luva branca a todos aqueles que já não acreditavam na sua veia artística, ao brindar-nos com uma obra-prima dark e desapaixonada (e enganadoramente inexpressiva) que mistura religião e ecologia sob uma perspectiva atípica (com a questão de fundo "poderá Deus perdoar-nos pelo mal que fazemos à sua criação maior ... o planeta Terra?"). Todavia, não estamos - de todo - perante um filme religioso nem tão pouco se trata de uma obra ecologista panfletária (ou talvez o seja, todavia, as preocupações ambientais são exploradas de um modo filosófico e/ou lírico - recusando impingir mensagens directas e lineares).

É uma película sobre demónios (interiores) e crise(s) de fé, quase pré-apocalíptica (ou quiçá, pelo contrário, até seja detentora de uma centelha de esperança, se atendermos à sua enigmática/electrizante cena de encerramento).
A narrativa (laboriosamente elaborada) gira em torno de um atormentado reverendo de uma pequena cidade interior, dilacerado por dilemas pessoais (consequência dos fantasmas do passado que teimam em não deixá-lo em paz) e espirituais, que desperta para as questões relacionadas com a destruição da natureza, após um banal contacto com um depressivo ecologista radical recém saído da prisão (passando a germinar em si, a partir daí, uma nova visão do sagrado e do Homem, que implicará alterações ao nível da sua conduta comportamental).

Realce-se a austera e "dark" filmagem/fotografia (impregnada de uma certa aura "seventies"), saturada de imagens "despojadas e herméticas" (que intensificam a sensação de estarmos perante personagens zombies em perpétua agonia devido à sua crescente descrença na humanidade).

Publicada a 20-07-2018 por José Miguel Costa