Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

O filme "A Lua de Júpiter", do húngaro Kornél Mundruczó, é uma (tentativa de) parábola civilizacional de cariz religioso/humanista (e com um intuito de crítica político-sociológica, cuja moral subjacente acaba por ficar apenas a "pairar no ar", tal a salganhada de subtemas aflorados num pretensioso registo pseudo-simbólico/poético) sobre a crise dos refugiados na Hungria, centrada na figura de um jovem imigrante sírio que, após ter sido baleado ao atravessar a fronteira, passa a ter o dom de levitar. Com um pé no realismo social e outro no fantástico (e recorrendo a um mix de drama, triller de acção, suspense e sci-fi) acaba por revelar-se incapaz de encaixar as suas diferentes peças/linguagens num todo coerente. Todavia, se tivesse havido um pouco mais de mestria/paciência no limar das arestas e incongruências da narrativa (abstendo-se de clichês simplistas e melosos), bem como um menor deslumbramento em alguns desnecessários/belíssimos delírios de exibicionismo técnico (que se constituem como meras "divagações sensoriais" entre cenas, sem aparente interligação, com o objectivo único de "encher o olho"), quiçá, poderíamos estar em presença de uma obra de culto. E atrevo-me a afirmá-lo porque, de facto, é impossível ficar-se indiferente perante o criativo processo de mise en scene - pejado de planos sequência e travellings deslumbrantes - que nos mergulha num enigmático/terrifico ambiente opressivo e, simultaneamente, apocalíptico e angelical.

Publicada a 11-06-2018 por José Miguel Costa