Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

Laurent Cantet já figurava no meu top de realizadores de culto europeus (ou não fosse Ele o pai de três obras absolutamente essenciais, "Recursos Humanos", "A Turma" e "Regresso a Ítaca"), todavia, ainda teve a capacidade de reforçar a admiração que nutro para consigo ao retornar aos grandes ecrãs com um sublime drama humanista ("polvilhado" por suspense), "Workshop".
A sua magnificência advém sobretudo da qualidade superior do argumento (no qual realidade e ficções se encontram inteligentemente entrelaçadas), construído a regra e esquadro em parceria com Robi Campillo (que também já nos presenteou este ano com o excelente "120 Batimentos Por Minuto"). De facto, este tem a perícia de expor-nos (sem recurso a caracterizações esquemáticas, juízos de valor tendenciosos ou moralismos simplistas) perante as tensões da sociedade francesa (fazendo uso de uma espécie de "visão de helicóptero" da sua História e da situação sócio-politica contemporânea), decorrentes das questões da multiculturalidade, através do confronto de ideias, directo e dialéctico, no seio de um grupo de jovens representativos da multiplicidade étnica da França (não actores - que reforçam o realismo da película), reunidos sob a direcção de uma escritora de romances numa oficina de escrita criativa destinada a alunos com um percurso escolar problemático de uma cidade desindustrializada e economicamente deprimida.

Poder-se-á afirmar que estamos em presença de um (quase) "filme debate" que vai (des)construindo ideias divergentes/convergentes, por "simbioses argumentativas" que tentam incutir os conceitos de "perspectiva do outro" e da riqueza inerente à heterogeneidade racial/cultural a miúdos que mais não são que "filhos do tédio" sem objectivos definidos, permeáveis (para o bem e para o mal) a quaisquer uns que abanem as suas solitárias/inócuas existências.

Publicada a 05-06-2018 por José Miguel Costa