Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

O filme "Temos Que Falar Sobre o Kevin" (2011) implicou amor à primeira vista para com a realizadora Lynne Ramsay, motivo pelo qual poderei apreciar de modo um tanto enviesado o seu novo triller de acção (noir) "Nunca Estiveste Aqui", ainda mais sendo este protagonizado, de modo sublime, pelo enigmático Joaquin Phoenix (o que lhe valeu a distinção de melhor actor no festival de Cannes). E se é um facto que até reconheço legitimidade aos seus detractores (que acusam-no de não passar de um cocktail - mal misturado - de "Taxi Driver" do Scorsese e "Drive" do Refn, abrilhantado por uma espécie de "anti-herói de autor" que deambula ad eternum qual zombie do "Walking Dead"), nomeadamente no que concerne ao seu registo algo monossilábico (na primeira parte da película - dado que lá mais para o final a "coisa explode" ... e de que maneira!), bem como por apresentar alguns aspectos inverosímeis ao nível do enredo (efectivamente não lembra nem ao diabo que um "touro enraivecido", munido de um simples martelo, consiga penetrar em espaços privados altamente vigiados e aniquilar, com uma "perna às costas", seguranças "armados até ao tutano"), não será por isso que deixarei de amá-lo incondicionalmente. Aliás, está condenado a ser exclusivamente amado ou odiado (não haverá "meios termos", mesmo no seio da crítica especializada).

Lynne Ramsay transporta-nos numa viagem introspectiva até à psique infernal de um atormentado/alheado e indefinido "justiceiro" (um brutal, e "menino da mamã", ex-agente do FBI, aparentemente, sem motivações de índole moral e/ou de justiça) que resgata adolescentes sequestradas por redes organizadas de tráfico sexual de menores (que operam nas altas esferas da sociedade), a troco de dinheiro (e, possivelmente, como forma enviesada de expiar o seu passado - que o atormenta ininterruptamente - de alegados abusos por parte do pai e de "abusador" enquanto elemento ao serviço do Estado - (f)actos que apenas nos são sugeridos através de flashbaks). E fá-lo recorrendo a um formalismo estético de encher o olho, condimentando-o com uma enervante banda sonora de intensidade crescente (a cargo de Jonny Greenwood dos Radiohead) que jamais nos permitirá relaxar ... por um segundo que seja.

Publicada a 22-05-2018 por José Miguel Costa