Cinecartaz

Fernando Oliveira

Um lugar silencioso

Um filme formalmente hábil, e bastante inteligente na maneira como a partir de um argumento simples nos instala numa ambiência tensa e enervante. Um série B de terror, que usa e abusa dos modelos do género, mas que os ultrapassa porque a história contada obriga a ser um filme quase sem diálogos. Onde tudo é contado por aquilo que é Cinema: o que a câmara nos mostra, e não nos mostra, o espantoso trabalho com o som, a representação (e Emily Blunt e Millicent Simmonds estão admiráveis), e a realização de John Krasinski, que consegue com algum engenho sustentar a história.
A Terra foi invadida por alienígenas, não percebemos como nem porquê, parece que apenas querem caçar os humanos até à extinção. Cegos, mas como uma audição extremamente apurada, velozes, caçam e matam ao primeiro som emitido por nós. As conversas, a tosse, o choro são morte certa; caminhar, apenas descalços e em caminhos construídos com areia.
O filme começa em tragédia: uma família – o pai, a mãe, e três filhos – regressa a casa depois de uma visita a uma loja abandonada para recolher mantimentos, os cuidados são extremos, o medo está sempre presente. O filho brinca e faz barulho, não é possível fazer nada, ao primeiro som é caçado…
Depois há um salto no tempo, um filho quase a nascer, o perigo que vai ser o seu choro. A cena do parto é um momento bastante intenso, uma situação de medo notável, mas a partir daqui Krasinski cede ao tanto-faz, ao exagero, e o filme perde com isso: o monstro dentro da cave durante a inundação, ou a cena no silo de milho são pouco credíveis. E aquele campo de milho, quase quinhentos dias depois da invasão, como é que foi cultivado?
Ainda assim, um filme bastante interessante.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt)

Publicada a 14-05-2018 por Fernando Oliveira