Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

A "marca" Wes Anderson (nomeadamente, a apetência por histórias com o seu quê de fábula - em fantásticos universos estilizados; a deliciosa natureza simétrica e geométrica dos planos; os constantes travellings para "deslizar" entre os cenários desenhados ao mais infimo pormenor; a utilização de cores saturadas e pastel; o recurso a "personagens robóticos"; e o seu humor inexpressivo e sarcástico) "topa-se à légua", mesmo quando o realizador se nos apresenta num registo de animação spot-motion na sua mais recente obra, "A Ilha dos Cães". E se é verdade que, como seria expectável, não abdicou da sua "impressão digital", tal não impediu que integrasse alguns ingredientes caracteristicos da inconfundível banda desenhada de origem nipónica, tornando esta sua amarga/crua alegoria politico-social sobre a intolerância (cuja acção decorre num distópico e futurista Japão - algo pós apocalíptico - governado por um ditador que engendrou um plano diabólico com o objectivo de erradicar todos os cães do país) ainda mais cativante a nível estético.

Pena que a excelência visual, bem como a qualidade dos intérpretes que dão voz aos seus apelativos personagens (Scarlett Johanson, Edward Norton, Bill Murray, Harvey Keitel, Bryan Cranston, etc.), não se faça acompanhar de um argumento mais organizado, consistente e ritmado.

De facto, é inegável que os desnecessários plot-twists, os frequentes/"atabalhoados" flashbaks e algumas "incongruências", a partir de determinado momento, minam a narrativa, tornando-a confusa e até arrastada (o que, felizmente, não se revela razão suficiente para que a paixão pelo Wes Anderson esmoreça e, como tal, este novo "date", no seu todo, acaba por revelar-se mais que satisfatório. Venha o próximo ... rápido!).

Publicada a 30-04-2018 por José Miguel Costa