Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

"Custódia Partilhada", a primeira longa metragem de Xavier Legrand (premiada no Festival de Veneza com o leão de prata na categoria de realização), é um drama familiar que explana o quão complexas/violentas (nomeadamente a nível psicológico) poderão revelar-se no pós-divórcio (sobretudo se o mesmo decorrer de um contexto de violência doméstica) as dinâmicas comportamentais dos membros que um ex-casal que se vêem confrontados (por um "Sistema" que não protege as vítimas) com a obrigatoriedade de terem de continuar a privar entre si devido à existência de filhos menores em comum (utilizados, por norma, como joguetes ou "armas de arremesso" ao longo de todo o "processo").

À primeira vista em termos narrativos é uma obra que "não sai fora da caixa", no entanto, destaca-se das demais que se debruçam sobre temáticas desta natureza por dois aspectos (que farão toda a diferença na apreciação do "resultado final"):
- A mescla de géneros cinematográficos que engloba. De facto, embora estejamos perante um produto que "transpira realismo social por todos os poros" (e tão mais eficaz se atendermos a que se abstém de quaisquer cenas "sentimentalóides", moralismos e/ou análises sociológicas simplistas) na realidade também recorre à linguagem documental (na longa - e necessária - cena de abertura em tribunal), bem como "polvilha aqui e ali" o filme com uns pózinhos de thriller (e, em determinados momentos, até chega a resvalar para o universo do terror - demonstrando, deste modo, uma genial gestão do crescendo de tensão);
- A ambiguidade das personagens. Inicialmente instala-se a dúvida (o espectro da mentira - de ambas as partes - paira no ar), não se identificando categoricamente o "vilão versus mártir" (estes revelar-se-ão, subtilmente - geralmente de modo não verbal -, à medida que vão sendo "descascados à nossa frente).
Em suma, uma película com os ingredientes base para ser pouco mais que banal mas que efectivamente não o é.

Publicada a 16-04-2018 por José Miguel Costa