Cinecartaz

Fernando Oliveira

Em defesa do maravilhamento.

Em “Ready player one”, Spielberg consegue a espantosa proeza de num filme que usa e abusa dos artifícios visuais inscrever um lamento, melancólico, pelo fim daquele cinema de aventuras que para lá do que contava tinha lá dentro personagens com emoções. Representavam pessoas….
E consegue-o contrapondo a desordem feérica do mundo virtual não à miséria social do mundo real (a estória é uma distopia, contada numa lixeira e ferro-velho urbano onde toda a gente migrou para esse mundo virtual), mas aos sentimentos de amizade, o amor, e até o idealismo singelo daquele grupo de pessoas que tentam salvar o gozo lúdico “vivido” no OASIS (é o nome desse mundo) da cooperação que o quer controlar. O filme é talvez excessivamente delirante na forma como encena e coreografa aquele espaço (e é claro que Spielberg nunca iria tanger o lado monstruoso da fantasia, ou a perversidade da mente humana; naquele mundo, onde tudo é possível, quase não encontramos referências, por exemplo, às fantasias sexuais) mas a nostalgia leva a melhor sobre o desenho demasiado videojogo dos cenários: Spielberg puxa constantemente a estória para o “passado” com a iconografia e a banda sonora muito anos 80, e as e extraordinárias e constantes referências cinéfilas (quem mais se lembraria do belo hino a amizade que é “O gigante de ferro” de Brad Bird?) que enchem todo o filme. Um filme também feito de símbolos. Tem sido muitas vezes escrito que há no filme um notável remorso de Spielberg por se sentir um dos responsáveis pela infantilização que tomou conta do Cinema mainstream actual, desinspirado da realidade; mas se James Halliday pode ser uma “ideia” reflectida de Spielberg, este continua a demonstrar uma enorme sedução por este cinema de entretenimento puro: “Ready player one” talvez seja uma crítica à escolha de aceitar estes mundos (e aqui mais a irrealidade vivida na internet, que o cinema actual) como parte da nossa realidade; mas defende como essencial à condição humana, a vertigem e o maravilhamento, o escapismo que nos são dados pelos filmes de aventuras.
Um filme tão inquietante quanto genial.
(em “oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt)

Publicada a 15-04-2018 por Fernando Oliveira