Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

O filme "Maria Madalena", do realizador Garth Davis, é um drama bíblico convencional, que apenas se destaca dos demais pela visibilidade mediática da dupla de protagonistas (Joaquin Phoenix e Rooney Mara), bem como pelo seu cariz algo feminista (de facto, o australiano com esta obra vem repor o "bom nome" de Maria Madalena, que "andava pelas ruas da amargura" desde o século VI, data em que o papa Gregório Magno reescreveu a "história", transvestindo-a como prostituta e "apagando" o seu papel como a décima terceira apóstola - quando afinal a moça, ao que parece, até foi uma "santinha revolucionária", ao revelar-se contra a tirania da tradicional sociedade patriarcal, recusando o "casamento arranjado" pela família e, consequentemente, abandonando o lar para seguir o seu Messias).

Na realidade, a Maria Madalena não deixa de ser uma personagem secundária (sonsinha) no filme ao qual empresta o seu nome (no fundo um bocadinho machista, não?). E não é a única "sonsinha lá no sítio", na medida em que todos os intervenientes, independentemente das suas actuações coesas, não passam de personagens unidimensionais destituídos de emotividade, apesar dos constantes close-ups dos seus rostos (e da excessiva utilização de "música épica") a apelar ao "sentimentalismo".
Se a esta faceta associarmos o recurso a um estilo de "filmagem minimalista e contemplativa" (que incongruentemente, não se se revela impedimento a que a narrativa linear descambe num final demasiado apressado), facilmente se depreende estarmos em presença de um filme maçudo e monótono, certo? Errado! Estranhamente, e apesar dos múltiplos handicaps mencionados, confesso que até nem desgostei desta obra, quiçá devido ao novo Jesus icónico que Phoenix deu à luz e pela fotografia (deliciosamente) "despejada" e melancólica (que irradia "serenidade", em contraponto aos dramas de "faca e alguidar" que, por norma, caracterizam este tipo de "cinematografia religiosa").

Publicada a 24-03-2018 por José Miguel Costa