Cinecartaz

Caliban da Catrineta

Blanchett vs. Crass

Não é complicado perceber que um crítico não precisa de ter a nossa opinião e que não se deve levar isso contra ele. Nem que, se um crítico devesse ter a nossa opinião, não era preciso crítico. Era o que faltava que fôssemos obrigados a concordar com o que quer que seja. E, para que conste, dizer "eu sou um zé-ninguém e gosto, o crítico não gosta porque está a fingir que é intelectual" é uma espécie de treta passiva-agressiva sem sentido. De acordo com a sensibilidade de cada um, não é nenhuma heresia achar em maior ou menor grau que este filme é um projecto conceptual falhado, um 'vanity project', um conjunto pouco coerente, etc., etc. Eu por acaso gostei bastante.

O que me enerva :) é a parafilia deste crítico em volta do "autêntico": é o filme do Hazanavicious que é culpado de reduzir o filme mudo a uma caricatura empobrecedora (mais ou menos no mesmo grau em que o Astérix é culpado de lançar enormes mal-entendidos sobre a ocupação da Gália?), é o segmento punk em que a Cate está perdida...

Este crítico é especialista em tudo, inclusive a forma correcta de fazer de punk mocado a declamar manifestos. Não se limita a não gostar, a achar tosco ou exagerado: a miúda está perdida. Era melhor, talvez, ter usado uma actriz profissional em vez da prima do realizador. Vê-se que o crítico teve longas conversas com o Cassavettes e o Malkovich sobre a melhor forma de fazer tostas de frango, as vantagens de usar boxers em vez de slips e a única forma de filmar um grande plano de uma amêijoa a fazer o pino, que é a que o Bergman usou ao filmar aquários. É por isso que o público passa a maior parte das suas críticas de filmes sem falar de filmes, a tentar chatear os críticos, desmenti-los ou gozar com eles.

Publicada a 08-04-2018 por Caliban da Catrineta