Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Rito de passagem

Não há qualquer fatalidade criativa que leve a que os filmes sobre a adolescência tenham de ser em tons de rosa, parvos e fúteis ou, em alternativa, negros, dramáticos e dilacerantes. A prova desse meio-termo é, precisamente, este «Lady Bird», onde a jovem do título começa a voar, perdendo a inocência da adolescência e acumula confiança para entrar no mundo adulto.

Ladybird vive em Sacramento, uma cidade secundária da Califórnia, onde a carismática San Francisco e a glamourosa Los Angeles reinam. À semelhança da sua terra natal, também a protagonista ambiciona outros voos e quer sair rapidamente dali, para ir ao encontro do futuro radioso que ela acha que merece e que acredita que conseguirá atingir. O problema é que Ladybird ainda está no liceu, com o peso do catolicismo a castrar emoções, sem esquecer que ainda se entretém com os mexericos do recreio, dedica-se ao culto adolescente pela imagem e demonstra preocupação com os rótulos inerentes ao local onde se vive e com que se anda… E Christine, a sua dimensão verdadeira, refugia-se na sua personagem para tentar esconder não só o que é como de onde vem: um meio pobre, trabalhador, esforçado, mas longe da “upper class” que a rodeia. Ter de dobrar este Bojador, de aceitar a realidade como ela é e não como gostava que fosse, um rito de passagem, uma verdadeira cerimónia de iniciação na idade adulta.

O que mais impressiona em “Ladybird” é a simplicidade com que tudo é contado, interpretado e ilustrado. Não há recurso a complicados saltos narrativos, as personagens são exactamente aquilo que aparentam e não há o mínimo espaço para virtuosismos de realização. Tudo é o estritamente necessário, “económico” e em conta. Porque o essencial são os sentimentos de Ladybrid e o que resulta da sua interacção com os seus sacrificados pais, com os diferentes amigos e de quando ela se olha ao espelho. Um trabalho aparentemente fácil mas que a realizadora Greta Gerwig desempenha com bastante eficácia, até porque também assina o semi-autobiográfico argumento, o que confere uma notória homogeneidade narrativa à obra. Recorde-se que estamos a falar da actriz que escreveu e interpretou o belíssimo “Frances Ha”… O papel principal foi entregue à seguríssima Saoirse Ronan, a americana de ascendência irlandesa, que já se havia destacado há dois anos em “Brooklyn” – com 23 anos, já conta com três nomeações para os Óscares… Há, ainda, espaço para o actual actor sensação, Timothée Chalamet.

Longe quer dos mundos irrealistas de filmes para adolescentes quer das viagens ao mundo da droga, “Ladybird” mostra com equilíbrio as angústias e virtudes do final da adolescência. Não é brilhante, mas é extremamente realista.

Publicada a 03-04-2018 por Pedro Brás Marques