Cinecartaz

Carla de Menezes

Filmado em Esperanto

Embora usando a língua Russa, este filme pode dizer-se que nos dialoga em Esperanto, uma linguagem comum ao mundo... é o mesmo que dizer que a acção e as inferências emocionais dela decorrente podem passar-se em qualquer latitude, usando qualquer etnia, usando som ou sendo muda, com protagonistas imberbes ou de idade, com casal de qualquer orientação de género. Enfim, um retrato cru e notável na naturalidade (quase se pensa que as câmaras estão decerto escondidas pela forma aparentemente não ensaiada como se tiram as meias dos pés, se sai da cama sem tapar o sexo ou se grita explosivamente...) das relações desafectuosas que criamos sem nos apercebermos, num eterno circulo temporal que se perpetua nas gerações das famílias. O efeito e causa do desamor e de um incómodo egoísmo de pessoas que se unem por acasos e têm filhos porque sim, não lhes proporcionando mais que afectos em escombros e caves escuras de rotinas (brilhante a procura de tentar salvar a criança num labirinto de casas abandonadas e florestas assustadoras, indo buscar referência às histórias infantis russas de onde surgiram todas as que conhecemos hoje) e que mesmo depois da morte não permite qualquer salvação. No fundo uma história de Hansel e Gretel em momento contemporâneo e geografia urbana e rica materialmente. A solidão violenta de não se saber como somos. Muito bom.

Publicada a 07-02-2018 por Carla de Menezes