Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

3 estrelas

Andrey Zvyagintsev, que já nos presenteou com magníficas obras como "O Retorno" (2003), "Elena" (2011) e "Leviatã (uma obra-prima do ano 2014), é um dos mais interessantes realizadores russos da actualidade, pelo que cada novo trabalho com a sua assinatura gera inevitavelmente expectativa no mundo cinéfilo ocidental (e temor no poder instalado do seu país, dado o seu hábito de expor os vícios do "sistema" dominante). No entanto, o mais recente "Loveless", embora também siga uma linha crítica (demonstrando, uma vez mais, a falência das instituições estatais e a amoralidade generalizada do seu povo), acaba por revelar-se mais inócuo e menos "incisivo". Talvez por a história relatada, apesar de poder ser percepcionada como uma metáfora à Rússia dos valores corrompidos por uma nova realidade económica e social, manifestar-se algo linear, desprovida de desenvolvimentos significativos (ficando a "patinar" de forma contínua, quase até à exaustão, em torno de um mesmo conteúdo) e sem capacidade de surpreender (inclusive, a partir de determinado momento, a narrativa torna-se previsível - o que não impede, felizmente, de culminar num final memorável). Apesar disso, este triller existencialista realisticamente cruel (dotado de uma certa lógica característica da cinematografia de índole policial - aspecto que o "banaliza" e lhe retira "força") sobre um casal urbano de classe média em processo de divórcio, que se vê obrigado a unir esforços com o objectivo de tentar encontrar o filho foragido de casa após assistir a mais uma discussão doméstica (filmado de modo cru e num registo necessariamente amargo e austero/sombrio), não deixa de dar-nos um "murro no estômago" e de infligir-nos angústia.

De facto, é impossível ficar indiferente perante tamanho vácuo relacional. Todavia, tal impacto deve-se sobretudo à sua assombrosa narrativa visual que enfatiza o desamor existente entre os personagens (envolvendo-nos numa atmosfera melancólica, pincelada a tons frios, escuros e cinzas - enquadrada através de sublimes planos fixos), bem como às "representações zombies" da dupla de protagonistas (que parecem desconectados de quaisquer emoções).

Publicada a 10-02-2018 por JOSÉ MIGUEL COSTA