Cinecartaz

Fernando Oliveira

A doença do amor

No inicio de “Linha fantasma”, Paul Thomas Anderson coreografa o quotidiano perfeitamente ritualizado e codificado de Reynolds Woodcock, costureiro da alta sociedade europeia dos anos 50. É um homem que vive o seu trabalho, desejando uma perfeição rigorosa tanto nas suas criações, como para a sua vivência diária. Picuinhas…. E coreografar será a palavra certa, porque o realizador dança com a câmara, seguindo os personagens pelas salas e pelas escadarias daquela casa, em movimentos formalmente perfeitos, mas que instalam uma surpreendente leveza naquele mundo.
Quando vai passar uns dias ao campo, enfeitiça-se por uma empregada de mesa (e enfeitiçar aqui poderá ter muitas leituras: o nome da jovem é Alma), que aceita envolver-se na sua vida. Mas mais do que desejar o seu corpo ele quere-o como objecto e inspiração para o seu trabalho. Há este olhar calculado de Reynolds, mas também há um erotismo estranho e perturbante que brota na entrega absoluta que aquela mulher faz do seu corpo ao trabalho daquele homem (veja-se a cena em que a mede e dita as medidas à sua irmã).
Alma vai assim invadir um espaço familiar ambiguamente desenhado: Reynolds depende quase inteiramente da sua irmã e tem uma relação delirante com a memória da sua mãe. O filme evolui para o estudo do confronto dos desejos daquele homem e daquela mulher, e como se alteram as posições de controle, um desenvolvimento que se torna doentio e malsão, e que acaba aceite pelos dois num fim tão estranho quanto fascinante.
E se a história é contada nos anos 50, Anderson utiliza a “ideia” dos melodramas dessa época (sim, também é um filme romântico), mas perverte-a com um “olhar” livre e quase amoral, que faz de “Linha fantasma” um filme surpreendentemente feliz.
Os actores são absolutamente extraordinários, Daniel Day-Lewis, Lesley Manville e Vicky Krieps, num filme onde Paul Thomas Anderson mais uma vez demonstra que é um dos mais espantosos criadores no Cinema contemporâneo e, talvez, o único em que a obsessão pela perfeição formal (Reynolds até poderá ser ele a ver-se ao espelho), não tira um pingo de emoção aos seus filmes.
Essencial.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 14-02-2018 por Fernando Oliveira