Cinecartaz

Pedro Brás Marques

A forma da igualdade

Qual é a forma da água? É aquela que o seu recipiente tiver. A água adapta-se às circunstâncias físicas que encontra e não distingue ninguém em função disso. Já o ser humano é incapaz duma tal igualdade de tratamento.
O mexicano Guillermo del Toro propõe-nos um conto de fadas com uma mensagem eterna e infinita: a da igualdade como forma plena de compreensão. Coloca a acção temporalmente nos anos 60 e, espacialmente, numa base secreta norte-americana. Mas em vez de assistirmos ao desenrolar da acção por via dum cientista ou dum militar graduado, como habitualmente, del Toro coloca o centro da trama na “common people” que se encarrega da limpeza do espaço, em concreto na frágil Elisa, um jovem muda e solitária, protegida pela sua colega negra, Zelda, e que só tem um amigo, o homossexual Giles. Um dia dá entrada na base um ser de forma humanóide, que havia sido capturado na América do Sul e que ali está para experiências científicas. Elisa sente empatia por ele, consegue estabelecer comunicação e os dois acabam por se apaixonar. Quando ela descobre que o Governo pretende fazer experiências com o dito ser, decide raptá-lo e levá-lo para casa…
É óbvio que “A Forma da Água” é um reboot dos contos de encantar, onde o amor vence todas as dificuldades e derruba todos os inimigos e onde a heroína conta com a ajuda dos amigos para conquistar o objectivo. Mas, nos tempos que correm, a leitura é outra e Del Toro adaptou as características da história aos tempos actuais, onde se fala de mudança mas para pior. Afinal, a muda, a negra e o gay representam os oprimidos pelo preconceito vigente numa sociedade que continua com tiques eugénicos, racistas e homofóbicos. É preciso vir alguém de fora, o tal monstro da água, para quem todos são iguais, excepto no que aquilo que a sua natureza íntima revela, bondade ou maldade, uma fronteira com o nome de Amor.
Ao colocar a acção nos anos 60 do século passado, tempos turbulentos e determinantes para a luta do Direitos Civis na América, o realizador e também argumentista tem o propósito evidente de alertar do perigo para um regresso a este passado, por via do que o actual poder em Washington represente e defende. É um filme com mensagem política, subliminar, sim, mas extremamente bem construída. Quem optar por o ver como um mero entretenimento, na área da ficção científica, pode fazê-lo, tal qual acontece com quem quiser atingir outros níveis de interpretação. É esta pluralidade de leituras que faz uma obra ser grande.
É claro que, para isto funcionar com mestria, tornava-se imperativo uma associação perfeita entre interpretação e técnica que, felizmente, foi conseguida. Sally Hawkins, a frágil e sonhadora Elisa, está brilhante, dando uma energia e uma força a uma personagem que tinha tudo para se deixar sufocar pelas dificuldades da vida. Depois, o trio de secundários, com o sempre aterrador Michael Shannon e os fiáveis Richard Jenkins e Octavia Spencer, completa um ramalhete de grandes interpretações. Quanto aos cenários, como é habitual nos filmes de Guillermo del Toro, são simplesmente maravilhosos. Numa estética retro, com pitadas de “science fantasy” e até do universo “steampunk” (as “piscinas”, as jaulas…), evoca algum do cinema clássico, desde logo o lendário “O Monstro da Lagoa Negra”, de 1954, a quem certamente foi buscar inspiração para a concepção do monstro – deste e do anfíbio Abe Sapien, de “Hellboy”, também de Guillermo Del Toro. E não podemos esquecer a magnum opus, “O Labirinto do Fauno”, outra revisitação ao mundo onírico da fantasia.
“A Forma da Água” é um belíssimo filme, proporcionando um entretenimento inteligente, com uma profundidade cada vez mais rara no cinema mainstream norte-americano. Se vencer os Óscares, será um feito inteiramente merecido.

Publicada a 11-02-2018 por Pedro Brás Marques