Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Tiragem fraca...

A grande virtude de «The Post» é o extraordinário mergulho na memória que proporciona ao espectador. Dum tempo em que os jornais eram uma realidade diária, dum tempo onde a comunicação social se regia por valores e princípios e não se vergava ao poder instituído, dum tempo onde o jornalismo se movia por causas e não por meros interesses circunstanciais.

O cenário é o dos «Pentagon Papers», uma série de documentos secretos fotocopiados por um analista do Pentágono que os forneceu à imprensa, primeiro ao “New York Times” e, depois, ao “Washington Post”. O filme acompanha o que se passou, ao nível da redacção e da direcção, neste último – o primeiro tem vindo a queixar-se de que o filme devia era chamar-se “The Times” e não “The Post”… Com efeito, a “cacha” surge num momento delicado da vida do “The Washington Post”, que além de se preparar para avançar para a Bolsa, tem a proprietária Kay Graham, recentemente viúva, confrontada com um Conselho de Administração algo receoso e até renitente em relação à sua capacidade para o cargo. Como se já não fosse pouco, a Administração Nixon tinha acabado de conseguir com que o Tribunal Federal impedisse o “New York Times” de continuar a publicar mais notícias acerca dos tais documentos desviados. Uma tempestade perfeita para Kay atravessar.

A rotativa de «The Post» demora tempo a aquecer. Até chegarem os “Pentagon Papers”, a acção arrasta-se, já que a preocupação é a de mostrar o que se passava no interior da empresa, nomeadamente as relações com o poder, as cumplicidades antigas com os políticos e, claro, para dar a conhecer os diversos estratos de decisão dentro do jornal. Depois, tudo se torna mais definido e concreto, em direcção ao desfecho final. Um filme claramente a duas velocidades, sem que se veja qualquer utilidade nisso. O tema é conhecido e a questão de fundo, a liberdade de imprensa vs. decisão judicial acaba por se resolver quase em tempo record e sem que seja desenvolvida ao nível argumentativo. Mesmo a tomada de decisão de avançar, ou não, por parte de Kay, surge já bastante tarde

Um filme de Steven Spielberg é praticamente “à prova de bala” no que à parte técnica diz respeito. Além duma realização “by the book”, com os seus habituais grandes planos de faces iluminadas, sem esquecer a banda sonora ou a fotografia académica, tudo está perfeito, polido, como num restaurante com dezenas de anos a servir clientes. E o problema é esse. Tudo demasiado rígido, previsível e quase mecânico, até mesmo as recorrentes interpretações “sofridas” de Meryl Streep ou a habitual confiança “liberal” de Tom Hanks. Mesmo Spielberg, agora que enveredou por temas mais políticos do que fantásticos, está “aborrecido”, sem chama, sem energia… Onde o “The Post” realmente brilha é na reconstituição desses tempos em que a informática nem uma miragem sequer era ainda e onde tudo se fazia “à mão”: o correio interno processava-se por tubos pneumáticos, a impressão tinha primeiro de passar pelos lendários linótipos e as rotativas eram do tamanho de comboios… Hoje, como é sabido, tudo é mais fácil e rápido. Mas todo aquele tempo, todo aquele ritual contribuía para uma sacralização não só do objecto como da própria concepção e produção do jornal. Hoje, como é pacífico, somos todos jornalistas e fotógrafos…

Publicada a 04-02-2018 por Pedro Brás Marques