Cinecartaz

José Miguel Costa

4 estrelas

"Três Cartazes à Beira da Estrada" é uma tocante e hilariante comédia dramática, na qual tragédia, violência e avalanches de humor desconfortavelmente negro e sarcástico interagem de um modo inteligentemente ambíguo e imprevisível num universo que poderia pertencer em absoluto aos irmãos Coen (e não, não nos lembramos deles apenas devido à omnipresença da protagonista que jamais deixará de ser associada a uma das suas obras de culto, " Fargo").
Com recurso a uma estrutura narrativa volátil e (deliberadamente) incrustada de "pontas soltas" (com o clarividente objectivo de nunca deixar-nos efectuar confortáveis juízos de valor apressados, obrigando-nos a uma constante redefinição dos nossos estéreotipos), recheada com pequenos diálogos deliciosos, Martin McDonagh conta-nos a história da indefinível mãe coragem (um autêntico anti-herói feminino) que, sem olhar a consequências, coloca em rebuliço uma conservadora vila da América profunda ao confrontar publicamente, de forma provocatória, as pacóvias autoridades policiais locais devido à ausência de resultados na investigação do homicídio da sua filha (todavia, não pensem tratar-se de uma película que segue uma linha de investigação policial - nada disso, interessa-lhe exclusivamente explorar/escarafunchar as tensões internas, familiares e sobretudo da "sociedade do Trump"). E, desse modo, o realizador parece querer convencer-nos, grosso modo, de algo do género: "os americanos são feios, porcos, maus e tão burrinhos que até dói (ok, nem todos chegam ao nível do seu presidente!), mas lá no fundo (bem no fundinho!) ainda têm algo de bom, pelo que se forem devidamente direccionados quiçá ...".

Pese a qualidade do argumento, não subsiste qualquer dúvida de que o grande trunfo desta obra reside no trabalho de excepção de todo o seu elenco (combinaram em uníssono as melhores representações das suas vidas?!). De facto, não é apenas a badalada Frances McDorman (que merece todos os prémios - " e mais alguns" - que venha a ganhar) a destacar-se (embora a sua performance seja impossível de igualar), mas também a "bomba-relógio" Sam Rockwell e o Woody Harrelson (que já havia mostrado a sua "faceta de actor - a - sério" em "True Detective") - sem descurar quaisquer dos actores secundários, igualmente, impecáveis.

Publicada a 17-01-2018 por José Miguel Costa