Cinecartaz

Fernando Oliveira

... não verdadeira

Em “A partir de uma história verdadeira” Roman Polanski conta mais uma vez uma história de um confronto entre as suas personagens, e conta-o mais uma vez inscrevendo nesta narrativa um crescente desconforto e uma violência quase sempre latente.
Delphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner) escreveu um livro de sucesso inspirado na doença e na morte da sua mãe; esta exposição da coisa íntima causa um conflito emocional e uma desinspiração para começar a escrever outra vez. Quer avançar para a ficção pura, mas… Numa sessão de autógrafos conhece uma mulher, Ela (Eva Green), de quem se torna amiga. Só que a amizade de Ela torna-se controladora, abusiva, quer que ela continue a escrever sobre o que lhe é intimo, começa a tomar conta da sua vida. A ausência do marido, com quem tem uma relação “livre”, não ajuda… Aquela sensação de claustrofobia que habita em muitos filmes de Polanski instala-se de forma violenta nos dias de Delphine.
Com o argumento escrito pelo realizador e por Olivier Assayas, o filme é bastante hábil a “esconder” a verdade de Ela, embora depois de a conhecermos percebemos alguns sublinhados talvez desnecessários da história: como a amiga imaginária da infância de Ela; está, como sempre em Polanski, muito bem filmado e encenado, com duas actrizes notáveis – Seigner é perfeita naquela mulher inteligente, mas em perda, perto da loucura; Eva Green é talvez a única actriz actual com aquela presença marcante de “femme fatale” do cinema clássico, uma personagem com um passado misterioso e um presente cheio de zonas de sombra; mas falta a “A partir de uma história verdadeira” qualquer coisa, gostamos do que vemos, mas não causa perturbação, não causa estremecimentos. A “Ela” do filme será um Polanski talvez excessivo no seu trabalho de “marionetista”. Apenas um bom filme.

Publicada a 28-12-2017 por Fernando Oliveira