Cinecartaz

Fernando Oliveira

a roda da vida

Há filmes que Woody Allen gosta de pintar de negro. É o que acontece em “Roda gigante”, um filme triste e angustiado sobre as vidas frustradas de quatro personagens “presas” num parque de diversões em Coney Island nos anos 50 do século passado (talvez mesmo em 1950: vemos um poster do essencial “Winchester `73” de Anthony Mann, que estreou em Julho desse ano).
Personagens onde habitam estremecimentos e clivagens morais, atormentadas pelas escolhas que fizeram, que os arrastam para a tragédia. Há Ginny (uma interpretação espantosa de Kate Winslet), empregada de mesa num bar e que um dia sonhou ser actriz, tem um filho pirómano, e é casada com Humpty (Jim Belushi), funcionário do parque que a acolheu depois dela ter traído o primeiro marido, um alcoólico sem ambições; um dia a filha deste, Carolina (Juno Temple) regressa a casa fugindo do marido, um gangster que a quer morta porque ela o denunciou à polícia; e há Mickey (Justin Timberlake), nadador-salvador durante o Verão, que sonha ser um dramaturgo (e em todas as estórias de vida vê uma peça de teatro); é ele o narrador da história que o filme nos conta, falando muitas vezes connosco, e é ele que na sua insensibilidade mais ou menos ingénua vai levar o filme do drama para a tragédia. Porque ele e Ginny são amantes, ela pensa que aquela paixão a vai fazer voltar ao tempo em que era feliz; quando Mickey se interessa por Carolina, o ciúme e o desespero levam Ginny a tomar a mais fatídica das escolhas.
É um filme quase teatral, o artifício cenográfico que define aquele espaço a dimensionar o excesso emocional daqueles personagens. Lembra Tennessee Williams (e porque se parece teatro, “Roda gigante” é só cinema, Ginny recorda-nos a Blanche DuBois de Vivien Leigh em “Um eléctrico chamado desejo” de Elia Kazan adaptado de uma peça de Williams), mas é essencialmente o extraordinário trabalho de Vittorio Storaro sobre as cores e a luz que traduz as ambiências e este sentir teatral, em fuga ao realismo, para uma linguagem que é só cinematográfica. Porque todo este artificio e exagero narrativo e formal que encharcam o filme, este fingimento, servem para nos mostrar o abismo quase sempre aterrorizador que existe entre o que queremos e aquilo que a vida nos traz, entre o que é e o que deve ser (negríssimo é o final quando Ginny representa a impossível possibilidade de um futuro feliz).
Um inteligente filme sobre o remorso, uma demonstração feliz da qualidade de Woody Allen.

Publicada a 28-12-2017 por Fernando Oliveira