Cinecartaz

Francisco Quintas

Lucky (2017) - Crítica

Lucky, um texano de 90 anos, depois de uma ligeira tontura, começa a lidar com a ideia da chegada cada vez mais breve da sua morte.
Trata-se do directorial debut do ator John Carroll Lynch. Como nós sabemos, existe sempre aquele receio de ver a primeira obra de realização de um determinado artista, sobretudo quando o mesmo nunca teve nenhum outro trabalho no mesmo cargo. O ator nunca realizou nenhuma curta ou episódios para séries, mas mostrou-se perfeitamente à altura do desafio. Lucky é um filme minimalista e curto, mas muito bem trabalhado técnica como interpretativamente. É prova que quantidade não é sinónimo de qualidade.

Por onde começar? A interpretação do Harry Dean Stanton merece ser comentada o quanto antes. O ator morreu em Setembro com 91 anos e teve uma carreira muito respeitável. Com uma filmografia de 60 anos com mais de 200 trabalhos, o ator demonstrou estar em forma para participar em mais projetos. E apesar das tão elogiadas performances em Alien, de 1979, e em Paris, Texas, de 1984, Lucky junta-se à lista das mais poderosas interpretações da carreira do ator. Dentro de uma aparente inexpressividade, o personagem é irónico, carismático, convidativo, engraçado, mas também maldisposto e, por vezes, grosseiro. O público acompanha-o nas variadas cenas de humor e de maior reflexão sobre diversos assuntos. Sendo assim, aprende muito sobre ele com pouquíssimos diálogos. A sua caracterização consiste em montagens da sua rotina, em cenas sossegadas do protagonista a fumar ou a tocar harmónica, e em maravilhosos monólogos assim como ótimos close-ups na sua cara, recheados de muita emoção transmitida pelos olhos do personagem. O ator carrega o filme às costas completamente. Uma nomeação póstuma era minimamente obrigatória. Descanse em Paz, Harry.

O filme tem a capacidade de dividir algumas pessoas. A história aborda sobretudo a perceção individual da nossa mortalidade e eventual fim, assim como um longo recapitular da nossa vida e daquilo que a mesma podia ter sido. O que há a seguir a tudo? Outra vida? Outro lugar? Ou apenas um constante, porém relaxante vazio? São várias as questões que o protagonista partilha com o público, sem nunca receber qualquer resposta, o que é sempre acertado de se fazer no cinema. Responder a estas dúvidas coletivas seria até presunçoso.
Os diálogos no geral e a opinião inicial concreta do protagonista acerca destas questões fazem parte de um guião muito engraçado, com a dose certa de cinismo. O equilíbrio entre o humor e o drama sempre presentes é muito fluído. Principalmente, quando o Lucky conversa com os vizinhos, há um ótimo desenvolvimento de uma comunidade pacata e de um companheirismo na pequena cidade texana.

O elenco secundário não sai muito do esperado. Verdade é que todos somem na sombra do Harry Dean Stanton, mas poucos são os atores que conseguem estabelecer uma presença notável. A impressão que dá é que algumas conversas de Lucky com determinados personagens ficaram por acabar. No entanto, simpatizei rapidamente com o Barry Shabaka Henley, sendo sem dúvida o maior destaque, na realidade, o David Lynch. A participação cómica e propositadamente risível do conhecido realizador gera alguns dos momentos mais engraçados de todo o filme.

Tal como maior parte dos filmes independentes americanos, Lucky possui uma fotografia ligeiramente poluída e acastanhada, contudo com um charme distinto que me farão lembrar de todas as enormes composições horizontais do protagonista a passear pelo vasto deserto, que nada mais são que referências/homenagens ao filme Paris, Texas. É de realçar, os catos, aliás, como os cágados, são muito simbólicos. Merece destaque também uma pequena cena psicadélica que trabalhou muito bem o vermelho.

A banda sonora, à base de harmónica, violino e viola, é uma das mais agradáveis do ano. Há também escolhas musicais muito adequadas como I See A Darkness, do Johnny Cash, e Volver, Volver, cantada pelo próprio Harry Dean Stanton, numa cena tocante e arrepiante.
Lucky é um filme pacato, é minimalista, paciente, mas com uma fascinante habilidade de gradualmente compensar, tocar e surpreender o seu público. Oferece uma realização convicta, firme e promissora do John Carroll Lynch, uma banda sonora maravilhosa, uma reflexão rica e concentrada no seu tema central, e um Harry Dean Stanton inspirado naquela que é uma das melhores performances masculinas do ano e da sua carreira.

Nota: A

Publicada a 29-11-2017 por Francisco Quintas