Cinecartaz

Fernando Oliveira

conversas entre homem e mulheres

Gosto muito daqueles filmes que parecem não contar quase nada, filmes que são simplesmente uma narrativa dos pequenos incidentes do quotidiano. Filmes que mostram a extrema complexidade que define o que é ser humano nos pequenos, e reconhecíveis, acontecimentos que preenchem o dia a dia de todos nós. Como todos os filmes, infelizmente poucos, de Hong Sang-soo que conheço, “O dia seguinte” é um filme desses, e um filme de que gosto muito.
Um homem e sua mulher que pressente que ele tem uma amante: a nova assistente na editora de livros de que o homem é proprietário, contratada no dia em que a história é contada e que é agredida pela mulher que a julga a amante. A anterior assistente e amante que regressa no fim desse dia e que quer voltar a ter o que tinha… Tudo regado com muito soju.
Este é apenas o quarto filme que vi de Hong, e embora seja o autor de 21 filmes, parece-me indiscutível que são todos eles pequenas variações sobre o mesmo tema: a relação entre os homens e as mulheres e a forma como as palavras explicam essa relação, este é mesmo na sua essência um filme que conta conversas, quase sempre à mesa, quase sempre a beber, sobre o que aconteceu às personagens, um homem e três mulheres, deixando de fora do filme a encenação desses acontecimentos.
Depois, há aquele espantoso minimalismo aparente da realização de Hong, parece ser um filme “parado”, mas são prodigiosos alguns movimentos da câmara, alguns enquadramentos; a leveza daqueles actores (Kim Min-hee, que já este ano tinha deslumbrado em “A criada”, é absolutamente extraordinária) numa estrutura narrativa que confunde; num filme fora deste tempo, numa mistura de drama e comédia - “sorris e nem sequer estás feliz”, um filme muito bonito, que nos deixa talvez melancólicos, mas também felizes.

Publicada a 28-12-2017 por Fernando Oliveira