Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

4 estrelas

O filme "120 Batimentos Por Minuto", do franco-marroquino Robin Campillo, é um dramático manifesto politico-social (um quase documentário), "enxertado" com uma história de amor, que recua até à década de 1990 para no expor perante os desesperados gritos de socorro da comunidade de infectados pelo vírus da SIDA, à data ainda sem qualquer eco na comunicação social (motivo pelo qual eram mantidos na penumbra/ostracizados pelo governo de Miterrand - afinal, era uma epidemia que julgava-se afectar exclusivamente grupos estigmatizados pela sociedade, como gays, toxicodependentes, prostitutas e imigrantes).
Deste modo, constitui-se como o retrato histórico de uma época marcada pelas lutas de algumas organizações civis (aqui representadas através do grupo activista gay Act-Up Paris) junto das empresas farmacêuticas (que viram nestes doentes um novo nicho lucrativo) e do governo (com forte pressão para a implementação de campanhas publicitárias de prevenção da propagação da epidemia, bem como para a adopção de politicas de índole social que protegessem estes concidadãos).

Não estamos em presença de "apenas mais um" filme sobre a temática da SIDA, na medida em que 120 Batimentos Por Minuto é dotado de uma série de ideossincrasias que o elevam acima do mediano, nomeadamente a sua capacidade de metamorfosear-se ciclicamente, oscilando, graças à sua (inteligente) narrativa aberta com um ritmo inconstante, entre o colectivo versus individual e a melancolia versus alegria (alegria essa que advém de uma enorme vontade de continuar a viver - e mesmo que o espectro da morte nunca deixe de estar presente, o humor "is on the air", tal como o amor).
No entanto, a película destaca-se sobretudo nos momentos (cinematograficamente de cortar a respiração) em que "foge da narrativa" - que funcionam como uma espécie de "separadores entre cenas" - e vemos os protagonistas a dançar freneticamente em grupo ao som de uma soberba banda sonora.

Tudo isto é potenciado por uma eficiente filmagem com câmara à mão e pelo constante recurso a planos fechados de rostos (que não deixam escapar qualquer ponta de emoção).

Publicada a 08-12-2017 por JOSÉ MIGUEL COSTA