Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

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Nutro uma inconsciente simpatia pelo João Botelho, sem nenhuma razão de fundo que o justifique, talvez pela jovialidade dos seus 68 anos que o impele a estar em "tudo o que é sitio" da movida lisboeta (uma espécie de Marcelo Rebelo de Sousa das artes). Claro que tal apenas se constitui como um fait-divers de somenos importância a juntar à minha admiração por si enquanto realizador, ou não fosse ele o criador de alguns filmes ímpares que me ficaram na memória, "A Mulher Que Acreditava Ser Presidente Dos Estados Unidos Da América" e "Tráfico", respectivamente de 1998 e 2003 (verdade que para "mantê-lo no pedestal tento esquecer o improvável "Corrupção", de 2007, sobre a vida e "obra" da Carolina Salgado ... sim essa!).
Saliente-se ainda a sua coragem por recentemente (2010 e 2014) ter pegado pelos cornos em colossos da literatura clássica portuguesa, como os "Maias" do Eça de Queiroz (tendo-o transformado num produto surreal graças aos seus cenários) e "O Livro Do Desassossego" do Fernando Pessoa (que pensar-se-ia ser de impossível transposição para a sétima arte, mas resultou numa obra de pura poesia visual).

Eis que agora decidiu agarrar num outro "livro ancião", "A Peregrinação" do Fernão Mendes Pinto, só que desta feita a "coisa" descambou num perfeito desastre (de tal modo que nem consegui permanecer na sala de cinema até metade da exibição). De facto, trata-se de um filme péssimo (uma infinidade de cenas sofríveis - a todos os níveis - filmadas como peças de um puzzle sem encaixe possível). Nada ali resulta, começando pelo seu registo (numa tentativa vã de ser algo cómico num universo de pseudo-aventuras épicas) e terminando na performance dos actores (de um amadorismo constrangedor). E pasmem-se, não poucas vezes (espero que seja simples mau feitio da minha parte), pareceu-me filmado de uma forma incompetente de bradar aos céus (que luz era aquela?).
Se tudo isto não fosse já mais que suficiente, como "cereja no topo do bolo", optou pela inserção de patéticas cantorias no arco narrativo (ok, eu sei que são músicas do álbum "Por Este Rio Acima" do Fausto, no entanto, "não havia necessidade ... mesmo!).

Publicada a 11-11-2017 por JOSÉ MIGUEL COSTA