Cinecartaz

bg

Vale a pena ver, mas...

O filme é bonito, respirado, com tempo.
Conta a história de uma família. Não a explica, nem oferece uma tese. A crise, a pobreza e a falta de dinheiro, não explicam aquele desafecto entre família e amigos.
Relações desestruturadas, um vazio imenso tão do 'espírito do nosso tempo' em que todos estão 'à toa' e ninguém sabe para onde vai.
Momentos marcantes, como aquele 'travelling' final da casa junto ao rio. Uma das críticas mais 'objectivas' que se pode fazer ao filme tem que ver com a direcção de actores. Ou com a representação ('acting', não 'over-acting') que aparece constantemente pelo filme todo - como ainda acontece em vários filmes europeus... Sejam actores ou não-actores, estamos sempre a ver representar. Não temos nem a 'espontaneidade' de quem não é actor, nem a 'construção da personagem' de quem é actor.
Os papéis não são fáceis. O pai vai bem, a mãe também. Só que as 'miúdas', a filha do casal e mais ainda a amiga da filha, as suas deixas são muitas vezes artificiais, coladas, muito raramente 'suas', apanham sustos que não são sustos, etc.. Ou, num outro exemplo: como pressentimos imediatamente, ainda antes sequer de falar, o actor naquele pescador que está amanhar o peixe no quintal da casinha junto ao rio. Na cena, nas falas, estamos sempre perante um actor que está a fazer de pescador...
Que bom seria os realizadores serem mais exigentes na direcção de actores. Dá ideia que algumas novelas estão já muito mais avançadas...
Neste registo de representação mais 'naturalista', vale a pena seguir o trabalho de João Canijo. E realizadores e directores de actores 'naturalistas' deste país: vejam e estudem o filme 'Sangue do meu sangue' de João Canijo. Está lá o ensinamento sobre as linhas de uma representação 'naturalista'.
Então talvez desapareçam os arames dos actores e fiquem apenas as personagens, as pessoas-personas.

Publicada a 23-03-2018 por bg