Cinecartaz

Harry Morgan

Ainda em transe

As marcas identificáveis do cinema de Teresa Villaverde funcionam quase sempre mais contra ela do que a seu favor. Em “Colo”, tal como em obras anteriores, como “Os Mutantes” ou “Transe”, sucede isso precisamente, sobretudo quando informalmente se procura uma hiper-realidade e acabamos lançados nas inverosimilhanças do onírico. Poderia, com outro toque de câmara, estar-se a viver o pesadelo de um pai, uma mãe e uma filha, vítimas colaterais das troikas que assaltaram o país nos últimos anos. Mas “Colo” nunca o transmite, preferindo estilhaçar a unidade periclitante de uma família de classe média baixa que vê os seus parcos luxos (se assim os podemos denominar) esfumarem-se, numa narrativa errante e por vezes mal amanhada. Na verdade, desde os anos 90 que Villaverde não filma senão mutantes em transe. E isso, apesar de lhe reconhecermos algum virtuosismo, sabe sempre a muito pouco.

Publicada a 02-03-2018 por Harry Morgan