Cinecartaz

José Miguel Costa

3 estrelas

A crise económica que se abateu sobre este cantinho à beira-mar plantado teve um aspecto positivo (não, não sou um ignóbil capitalista neo-liberal), na medida em que forneceu "nutrientes" ao cinema luso para "florescer", apesar da míngua de financiamentos. Poder-se-á citar como exemplo de tal premissa uma das estreias cinematográficas da semana, "Colo" - escrito, produzido e realizado por Teresa Villaverde -, bem como recordar alguns títulos recentes, alvo de reconhecimento internacional, nomeadamente, "Mil e Uma Noites" (Miguel Gomes), "São Jorge" (Marco Martins) ou "Fábrica de Nada" (Pedro Pinho).

Colo, uma obra minimalista que segue os cânones do designado realismo anti-naturalista, não brada cobras e lagartos contra a crise em "tempo de troika(s)", não procura os culpados e/ou pretende traçar "rumos", "limita-se" a expor-nos, de um modo subtil e elegante (até algo poético), perante as sequelas provocadas pela mesma (não aquelas visíveis a olho nu, mas as daí decorrentes - as "dores afectivas", que degeneram numa gradual, e ensurdecedoramente silenciosa, erosão das dinâmicas familiares).
Fá-lo sem socorrer-se de um arco narrativo "forte" (motivo pelo qual a sua duração acaba por revelar-se excessiva). Não sendo a "palavra" o seu foco principal, opta por veicular as suas mensagens/"perspectivas" através de imagens de excepção (maioritariamente longos planos fixos).
De facto, Villaverde faz desfilar perante a nossa íris um contínuo conjunto de melancólicos/depressivos e metafóricos "quadros animados" (onde imperam "geometrias" e jogos de - ausência - luz/sombra) de beleza arrebatadora.

Em suma, o formalismo estético é, sem dúvida, o grande "abono de família" desta obra cuja acção se alicerça em torno de uma "esvaziada" família lisboeta de classe média baixa (igual a tantas outras) que vive no desaconchego do seu (ainda) lar (enquanto não é alvo de despejo por incumprimento das suas obrigações para com o banco). Todavia, seria injusto também não dar ênfase à excelência das interpretações da Beatriz Batarda, João Pedro Vaz e da jovem Alice Albergaria Borges (que encarnam na perfeição o papel de errantes zombies, em progressivo processo de inanição afectiva, que vagueiam por "espaços vazios' em busca de "nadas").

Publicada a 18-03-2018 por José Miguel Costa