Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Ser ou não ser...

“Ser ou não ser, eis a questão”, desabafa o príncipe Hamlet no seu famoso solilóquio saído da pena de Shakespeare. A questão da mortalidade, o drama existencial é, sem dúvida, a grande pergunta que apoquenta cada ser humano. Mas dela decorre uma outra: o que significa exactamente “ser”? É algo para lá da matéria? É ter consciência? Poderemos conceber uma existência consciente não humana? Poderemos existir para lá do nosso corpo?

“Do Androids Dream of Electric Sheep?” foi o conto de Philip K. Dick que serviu de base a “Blade Runner – Perigo Iminente”, onde se jogava com estas perguntas. Qual era a diferença entre o homem e a máquina? Se um se confundia com o outro, como distingui-los? E para quê distingui-los? Mas houve quem achasse que este passo de quase equivalência havia sido um erro e criara uma força especial, os “Blade Runners”, para eliminar esses bio-robots, os replicantes. No final do filme original, em vez de matar Rachel (Sean Young) como estava obrigado, Deckard (Harrison Ford) apaixona-se por ela e fogem da cidade. São ambos replicantes. Em “Blade Runner 2049”, passaram-se trinta anos no tempo narrativo, mas a caça aos replicantes continua. Agora já não é Deckard, mas sim o agente K. E este apercebe-se que tem consciência. E que os replicantes não são meras bio-máquinas mas seres que evoluíram e, pasme-se, até conseguiram procriar. E K começa uma procura, pelo seu passado, pela sua origem e até para descobrir se as suas memórias são verdadeiras ou implantadas. Ao mesmo tempo, o próprio K apaixona-se, já não por uma replicante mas algo ainda mais distante fisicamente: um holograma feminino!

“Blade Runner” sempre foi um dos “meus” filmes. Daqueles que sei de cor trechos de diálogo. Quando ouvi falar numa sequela, até tremi… Depois de quase três horas de visionamento, não tenho qualquer dúvida em dizer: “Blade Runner 2049” é muito, muito bom. E só não digo excelente porque lhe falta aquela centelha de novidade que faz toda a diferente. É um extraordinário filho, mas não é a surpresa de encontrar o criador.

Todo o sentido da história inicial foi apreendido pelos argumentistas e desenvolvido numa belíssima e perfeita sintonia. O drama existencial dos replicantes não só continua, como é elevado a um patamar quase impensável. Mas fez-se muito mais: recheou-se o filme com um sem fim de detalhes simbólicos. A caixa com as ossadas da “mãe replicante” é encontrada sob uma árvore, junto às raízes, qual Árvore da Vida, mas a planta ela está morta e, no entanto, dela parece brotar vida. Quando K quer namorar com Joi, a sua companheira virtual, carrega no comando que, ao ligar, toca as notas iniciais de “Pedro e o Lobo”, de Prokofiev, uma peça que retrata o conflito entre o homem e a natureza. Quando chega à cidade em ruínas, uma Las Vegas do futuro, K. passa pela cabeça tombada duma estátua gigante, o que remete para o conhecido soneto de Shelly, “Ozymandias”, onde o faraó Ramsés se lamuria perante a efemeridade da existência. E que dizer das abelhas, esse símbolo milenar da eternidade? E Wallace a falar para a caveira que resta do ser que ele quer melhorar? E a ironia de ver cantores e actores em perfeitos hologramas, indistinguíveis da realidade – tal como o são já hoje? Ou de Deckard ter no seu quarto uma cópia do quadro “Sagrada Família” (“Doni Tondo”), de Michelangelo? E será que a presença da Peugeot, mais do que mero “product placement”, não será um piscar de olhos à teoria da necessidade que o ser humano tem de viver com base em ficções, como Yuval Noah Harari apresenta em “Sapiens”? E K não remete logo para o desgraçado Josph K, de “O Julgamento” de Franz Kafka? Efectivamente, os níveis simbólicos em “Blade Runner 2049” são imensos, estimulando o espectador, enriquecendo a visualização e solidificando a homogeneidade de toda a história.

Ao nível visual, este filme nada fica a dever ao anterior. A cinematografia de Roger Deakins é esplendida: negro cortado por neons na cidade, castanho nas sucatas e laranja na antiga cidade do jogo. Continuamos a ter uma urbe escura e húmida, onde a chuva parece uma constante e a noite eterna, povoada por humanos melancólicos e que dependem das máquinas para tudo, até para se alimentarem. O caos e a corrupção imperam. O lixo mais pesado acumula-se em gigantescos ferros-velhos, em cenários que parecem decalcados da saga pós-apocaliptica “Druuna”, de Paolo Eleuteri Serpieri. Perante todo este caos, não admira que a maior parte dos anúncios proponham realidades alternativas…

K é interpretado pelo canadiano Ryan Gosling, um actor com um ar melancólico e que encarna na perfeição as dúvidas e angústias do replicante a que dá…”vida”. A espanhola Ana de Armas, belíssima, é uma agradável surpresa, quase tanta como ver Harrison Ford de regresso à interpretação duma personagem com a dimensão e a profundidade de Deckard. Aplauso, também, para Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, que fizeram uma evolução da já magnífica banda sonora original de Vangelis, insistindo nos sons agudos e pungentes e nas composições ambientais que tornam os cenários ainda mais claustrofóbicos.

Mas há que dar o mérito devido ao compatriota de Gosling, o realizador Dennis Villeneuve. Honrou o legado de Ridley Scott, respeitando a dimensão, o sentido e a estética do filme anterior. Não há muita gente capaz de usar a linguagem cinematográfica para contar histórias de dimensões imateriais e implicações existenciais. Villeneuve fá-lo de forma segura e serena, não cedendo à espectacularidade de momentos de acção, antes apostando em argumentos e interpretações que sejam capazes de transmitir o intransmissível. Kubrick, Bergman, Tarkowski, talvez Wong Kar-Wai são alguns dos membros deste clube de élite. Depois do fabuloso “Incendies”, mas principalmente após “O Homem Duplicado” e de “Arrival-A Chegada”, Villeneuve está no bom caminho.

Quanto às perguntas de “Blade Runner” e de “Blade Runner 2049”, elas ficarão eternamente por responder. Pelo menos até ao dia em que O encontramos. Se O encontramos. Enquanto estamos vivos, a questão estará em saber quais serão os limites da realidade. Vale a pena recordar Keats, em “Ode a um rouxinol”: “Adeus! Adeus! Teu queixoso hino finda/Além das campinas, além dos riachos,/Além das colinas, já sepulto/Nas clareiras do vale próximo;/ Foi uma visão, ou um devaneio?/Foi-se a melodia: - acordei ou durmo?”…

Publicada a 08-10-2017 por Pedro Brás Marques