Cinecartaz

Pedro Brás Marques

O homem para lá do líder...

Há cerca de três semanas, falava aqui sobre “O Sentido do Fim”, o filme baseado no livro de Julian Barnes, onde se abordava a questão da memória e da comum dessintonia desta com a realidade, algo crescente com o passar do tempo e o acumular de recordações. Em “Churchill”, a questão já não é apenas da memória, se recordamos os factos como realmente se passaram ou como os fomos adulterando inconscientemente, mas sim da memória como prisão do passado, causadora de perturbação face ao presente.
O filme conta um episódio muito concreto da II Guerra Mundial, os quatro dias que antecederam o Desembarque na Normandia. Churchill estava contra. Desafiava os Generais Montgomery e Eisenhower, anunciava uma catástrofe nas praias francesas, o que levaria a uma derrota na pretensão de eliminar Hitler. A sua visão era de que se tratava duma acção temerária, mal preparada e, principalmente, que a História ensinava e avisava de que um tal empreendimento tinha sido trágico no passado. Com a sua crescente oposição, os generais acabam por desrespeitar o Primeiro-Ministro e levar em frente a operação. Churchill sente-se ultrapassado, não só na sua autoridade como, principalmente, na visão dos acontecimentos. É quase um anacronismo histórico. Tudo porque continua preso a um desastre militar da I Guerra Mundial, a Campanha de Gallipoli que acabou com uma pesada derrota para Império Britânico. O Velho Buldogue sente-se incompreendido e perdido, contando apenas com a firmeza das mulheres: a de Clementine, sua companheira de vida, e a da secretária, que o guiam de volta ao contacto com o mundo.
No Reino Unido foram várias as vozes que se levantaram por entenderem que o filme beliscava a aura imaculada da “Maior Figura do Século XX”. Efectivamente, esta é uma visão de Winston Churchill a que não estamos habituados. A imagem de líder brilhante, inteligente, resoluto e perspicaz sai abalada mas, em compensação, cresce a dimensão humana da personagem que já se tornou lenda. E, claro, basta recordar John Ford, “quando a lenda se torna realidade, publica-se a lenda”…
Brian Cox dá corpo e alma a Churchill e fá-lo com uma energia e uma entrega notáveis. Aquela massa enorme, pétrea, um homem habituado a mandar e ser obedecido, a ser mais brilhante do que os demais, a ver para além da superfície das coisas, tudo isso está na composição de Cox, de longe a melhor coisa do filme e uma das melhores de sempre. Basta recordar John Lithgow na série “The Crown”, ou Brendan Gleeson em “Into the Storm”, ambas boas mas que não chegam à excepcionalidade da de Brian Cox. Os secundários acompanham, em especial Miranda Richardson no papel de Clementine. A realização é clássica e algo anódina, talvez por Jonathan Teplitzky estar habituado a trabalhar essencialmente em televisão. Pedia-se uma maior exposição da dimensão trágica do drama interior de Churchill e a realização não soube, definitivamente, explorar convenientemente esse ponto fundamental da trama.

Publicada a 17-07-2017 por Pedro Brás Marques