Cinecartaz

Luís GRACA

Sangue, suor e lágrimas... ou onze mulheres à beira de um ataque de nervos

Mais penoso do que ir a Fátima a pé... Há quem tenha dito isso do filme. Na realidade, não é um filme sobre Fátima, as aparições, o culto mariano, a espiritualidade, a transcendência, a religião, a fé, etc.

Nada disso, é um filme sobre o sofrimento e a superação, sobre um grupo de 9 mulheres de Vinhais em peregrinação até Fátima, a pé, no mês de maio de 2016, são 430 km que têm de ser percorridos em 9 dias, à média de 47,777 km por dia... Violento: 5 km por hora, 10 horas por dia... (30 km por dia, em marcha normal, faziam os exércitos de Napoleão Bonaparte!).

Há uma carrinha e uma rulote de apoio, conduzidas por outras duas mulheres, avó e neta: as refeições, as dormidas, os cuidados básicos são efectuados "in loco"... O duche é quando calha, em locais fixos de apoio (bombeiros, etc.).

São duas horas e meia de filme, "on the road", na estrada, na versão mais curta, comercial, que estreou há dias nos cinemas: fui às Amoreiras ver o filme, anteontem, havia na sala 3 dezenas, se tanto, de espetadores, ou melhor de espetadoras: na realidade, os homens eram comigo, dois ou três...

É um filme sobre 11 mulheres e a caixinha de Pandora feminina... Podiam ser homens, mas o João Canijo tinha que fazer este filme com as suas atrizes favoritas... E que bem que elas estão, levando ao limite o seu profissionalismo: (i) estágio em Vinhais, de cerca de 3 meses, para captar o ambiente, trabalhar, viver, conviver, ouvir histórias, apanhar e aperfeiçoar o linguajar e o sotaque das gentes da terra; (ii) idas a Fátima, no "duro", em maiores ou menores percursos; (iii) teste pondo à prova a sua capacidade de resistência física e psicológica, e no limite a sua própria saúde e segurança...

Foram muitos meses de preparação e planeamento, dois meses de filmagens... É um filme português, de um conceituado realizador (João Canijo, nascido no Porto em 1957), de quem vi, e de que gostei muito, o “Sangue do meu sangue” (2011) (um grande filme que ficará na história do cinema português e europeu).

Pode faltar densidade sociológica e psicológica ao filme, mas a verdade é que não se pode contar a história de cada umas destas 11 mulheres, mesmo num longa-metragem de duas horas e meia... Quais são as suas motivações, os seus valores. as suas crenças, a sua matriz sociocultural ? O que as faz ir em peregrinação, a pé, de Vinhais, no nordeste transmontano, a Fátima, no centro do país, por estradas alcatroadas que não foram pensadas para peregrinos?

Mais do que a história de cada uma delas, o realizador quis centrar-se no grupo, na dinâmica de grupo, nas múltiplas interações que se estabelecem numa situação-limite como esta, incluindo a liderança, o conflito, o espírito de corpo, a cumplicidade, a solidariedade... a resiliência, a coragem. Ninguém quer ficar para trás, e todas querem provar que são capazes de chegar ao fim. Na paz como na guerra, ontem como hoje, a vida é isso mesmo: sangue, suor, lágrimas e...suspiros.

É um filme que os homens, e sobretudo os misóginos, vão ter dificuldade em ver. A menos que as vejam, a elas, apenas como "gajas"... Mas eu aconselho, vivamente, aos meus ex-camaradas de armas, que passaram, pelos teatros de operações de África, a ver o filme: quantas peregrinações a Fátima não fizemos nós ? E ali, "o sangue, suor e lágrimas" não era uma simples figura de retórica... tal como no filme, que é um filme de realismo radical (como alguém já lhe chamou).

Publicada a 11-05-2017 por Luís GRACA