Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

4 estrelas

João Canijo no seu mais recente filme, "Fátima" (uma espécie de "road movie" documental ficcionado), acompanha a peregrinação (pouco) católica de 11 mulheres (as suas actrizes de sempre) que, na primeira quinzena de maio (durante nove dias), por forma a celebrar o aniversário da alegada aparição da virgem Maria aos três pastorinhos, efectuam a pé os cerca de 400 kms que separam a sua terra de origem (Vinhais, Trás-os -Montes) do mais importante local de culto mariano português. Fazendo juz ao seu característico registo realista, penetra sem limites no mais intimo de cada uma das caminhantes, em moldes de quase "reality show" (e atenção que não efectuo esta comparação em tom depreciativo).

Ao contrário do que seria expectável, atendendo à temática abordada, não estamos em presença de uma obra de cariz religioso (a sua critica ou apologia estão ausentes da narrativa, pelo menos de um modo directo - já os juizos de valor que efectuamos perante as imagens cruas que nos impinge são da nossa total "responsabilidade"). De facto, o realizador abdica de qualquer análise teológica, antropológica, social ou psicológica para (tentar) explicar este fenómeno de massas, que não mostra sinais de esmorecer, mesmo passados cem anos sobre o registo da tal ocorrência mística. Nem tão pouco explora as motivações/dramas pessoais prévios de cada uma das intervenientes, estando mais interessado na interacção relacional que se vai desenvolvendo entre elas (o espirito de entre-ajuda, as tensões, os conflitos implícitos e explícitos, as "disputas territoriais", o estabelecimento e a quebra de alianças), bem como nos mecanismos de defesa por si adoptados à medida que o cansaço físico, emocional e psicológico se vai instalando em consequência da dureza do sacrifício extremo auto-imposto.
Por certo, tais opções artísticas adoptadas pelo Canijo irão desapontar dois tipos de espectadores antagónicos, ou seja, os que buscam a "religiosidade" e os "sedentos de sangue". No entanto, a generalidade dos fieis seguidores da sua obra, conhecedores do seu modus operandus (entre os quais me incluo), não irá perfilhar tal sentimento, afinal, sabemos que a "matéria-prima" dos seus filmes é o "trabalho de actores" (e esse, em definitivo, não desilude - e claro ... a Anabela Moreira e a Rita Blanco transcendem-se!).

Publicada a 04-05-2017 por JOSÉ MIGUEL COSTA