Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

3 estrelas

Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência em "Esta Terra É Nossa", e a Lucas Belvaux só falta mesmo "chamar os bois pelos nomes"(a sósia da Marine Le Pen é por demais evidente). De facto, não há quaisquer dúvidas de que se trata de um filme concebido como arma de arremesso contra os populistas de extrema-direita da Frente Nacional (tanto mais quando o seu lançamento comercial coincide com o período da campanha eleitoral para as presidenciais em terras gaulesas). Todavia, estranhamente (ou não - para "entrar "com pézinhos de lã, sem "partir logo a louça toda" e, deste modo, não afastar potenciais espectadores) não estamos em presença de um produto de cariz militante explicito, diria antes que este aposta numa postura pedagógica, tentando desmascarar os verdadeiros intentos que esta força política continua a perseguir, apesar da suavização da sua imagem pública para cativar eleitorado mais moderado (afinal, como verbaliza, em determinado momento, um dos personagens "podemos ter mudado de estratégia, mas não mudámos de objectivos").

É uma película que carece de visionamento (pena que vá passar despercebida do grande público, por diminuta distribuição em Portugal), na medida em que efectua um sintético e interessante diagnóstico da situação socioeconómica das áreas geográficas de França mais afectadas pelas sucessivas crises (terreno fértil para a FN, onde os discursos demagógicos "anti-quase tudo" têm maior adesão), bem como por explanar alguns dos "truques" utilizados pela máquina partidária para cativar públicos que, por norma, não nutriam simpatias por políticas extremistas. No entanto, como documento cinematográfico (e até sociológico) revela uma certa mediocridade, por adoptar um discurso demasiado primário/ilustrativo/previsivel e maniqueista de quase diabolização daqueles que o realizador elegeu como inimigos, numa por demais evidente (e excessiva) dualidade "politicos bons versus maus", tratando os eleitores que "vão na cantiga do bandido" como meros inocentes/ingénuos que "se deixam levar" (sem aflorar o "como e o porquê" do crescimento dos scores eleitorais dos candidatos anti-sistema - afinal, o sucesso dos movimentos políticos populistas é culpa exclusiva dos partidos tradicionais que menosprezaram os seus cidadãos).

Publicada a 30-04-2017 por JOSÉ MIGUEL COSTA