Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

3 estrelas

A obra de Bruno Dumont parece ter mudado em definitivo de rumo, uma vez que após ter dado os primeiros passos no campo comédia surrealista no hilariante "O Pequeno Quinquin" (um dos meus filmes favoritos em 2014) continua a explorar o mesmo terreno no seu mais recente "La Loute" (no qual uma dupla de inspectores - um bucha e um estica em versão gaulesa -, que se vê ensanduichada entre uma excêntrica família burguesa e um bando de "feios, porcos e maus" aldeões, tenta desvendar o misterioso desaparecimento de uma série de turistas). Tendo por base este enredo, efectua uma critica social que satiriza os costumes da aristocracia francesa do inicio do século XX (e, consequentemente, a eterna luta de classes), socorrendo-se de um humor negro e (ultra) burlesco, bem como de uma narrativa impregnada de realismo mágico, quase se transformando numa espécie de alegoria realista.
No entanto, esta película está um furos abaixo da sua precedente, quer por ter exagerado no tom das metáforas e paradoxos, quer devido à alienação interpretativa dos actores (que faz uma caricatura demasiado estridente, estilizando em exagero os seus personagens, ao ponto de torná-los pouco credíveis). Acresce que a sua narrativa sem foco, e algo atrapalhada, ainda ajuda mais a que o seu característico, e salutar, non sense vá resvalando, gradualmente, até ao limiar do ridículo.

Significa isto que estamos perante um filme dispensável? Nada disso, até porque, por certo, parte a virulência da minha critica advém sobretudo da decepção por comparação com o "Pequeno Quinquin. E, de facto, este Ma Moute é detentor de alguns gags deliciosos (que, verdade seja dita, apesar da piada inicial, vão perdendo impacto ao longo da projecção, tornado-se, inclusive, monótonos, devido à sua distenção temporal e repetição até à quase exaustão).

Publicada a 23-04-2017 por JOSÉ MIGUEL COSTA