Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

3 estrelas

O filme "Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, é um drama realista (quase documental, tal é a naturalidade com que é explanada a pacatez do quotidiano da protagonista), humanista, intimista, nostálgico e aparentemente simples (no seio da sua narrativa fluida, e bem estruturada, esconde várias camadas temáticas), que se vai desenrolando sem pressas (uma virtude que também acaba por transformar-se no seu maior defeito, ao alongar-se em demasia a explorar "mais do mesmo").

"Aquarius" destaca-se, sem qualquer sombra de dúvida, pela banda sonora intensa/omnipresente e devido à performance da grande Sônia Braga (que interpreta o papel de uma musicóloga "de bem com a vida", que afronta, sem receios, os interesses económicos de uma corporação ao recusar-se, por uma questão sentimental, a vender o seu apartamento sito num prédio no qual já é a única residente - por aí guardar todas as "memórias da sua existência" -, frustrando, deste modo, os planos de construção de um condomínio de luxo no local).

Uma autêntica ode à resistência, que é vista por muitos como uma metáfora ao processo de destituição da Presidente Dilma (embora, segundo o realizador, não tenha sido esse o seu intuito original) e, como tal, acaba por constituir-se como um documento (quase) político. No entanto, nunca descola da condição de melodrama latente, por não chegar a "explodir" ao ponto de tornar-se visceral, ficando-se pelo "banho-maria".

Publicada a 19-03-2017 por JOSÉ MIGUEL COSTA